23 de out de 2018

A origem do "chocolate"


A origem do chocolate

A famosa noz de cacau só foi importada em França no reinado de Luís  XIII e vulgarizada sob Luís XIV pela  rainha Maria Teresa que, apreciando  muito particularmente essa deliciosa  bebida, fê-la saborear por toda a corte.  

Muito antes da França, os habitantes  de Guatemala conheciam as propriedades dos grãos de cacau.  

Havia duas espécies bem diferentes:  o “patelux", cacau grosso, de cor avermelhada, sabor acre e amargo, e o "socouascho", um pouco amargo, mas muito perfumado. Este era considerado tão precioso que, sob a sua forma de amêndoa, servia de moeda corrente. Nesse tempo, servia-se o cacau em copos de casco de tartaruga e incrustado de ouro e pedrarias.

Os espanhóis, depois da conquista do novo Mundo, importaram o cacau, e dele fizeram um uso considerável. O pó de cacau, misturado com leite, tinha sido batizado com o nome de chocolate. As ricas crioulas faziam-se servir dele, no ofício do meio-dia, por seus escravos, mas esse hábito foi logo interdito pelos oficiantes. As belas, porém, preferiram renunciar à missa a abandonar o seu chocolate. É, pelo menos, o que conta um historiador, que aproveita a ocasião para dar a entender que as mulheres foram sempre mais ou menos gulosas.

Os grãos de cacau ficaram desconhecidos na Europa, até que negociantes holandeses e ingleses, reconhecendo todo o valor desse fruto, o importassem para o velho continente pelo século XVII.

No fim desse século, o chocolate foi  objeto de vivas discussões, nas quais tomaram parte madame de Maintenon e a princesa de Ursins.

Tratava-se de saber se essa nova beberagem quebrava ou não o jejum da quaresma. As opiniões divergiram muito. Os jesuítas, contudo, declararam que o chocolate, feito na água, não passava de simples bebida, que podia ser ingerida, mesmo na quaresma.

Graças a essa publicidade, o chocolate entrou rapidamente na moda. Fizeram-se então os bolos, as peças montadas e os deliciosos bombons, que todos apreciamos hoje e que provocam tantos pecadinhos de gula entre os meninos.

Sob Luís XV, todos os senhores possuíam uma "bonbonnière" cheia de pastilhas de chocolate e, pelo ano de 1705, criou-se mesmo um novo cargo, o de "chocolateiro da rainha", cargo muito invejado, que tinha por missão fornecer à Sua Majestade guloseimas delicadas e variadas todos os dias.


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Fonte:
Revista Vamos Ler!, edição de 05/01/1939.

31 de ago de 2018

O emprego do TH: “enfeitando o pavão”


O emprego do TH: “enfeitando o pavão”

Especialmente a partir dos anos 90 do século passado tornou-se comum fazer uso da combinação “th” para a formação de nomes próprios, como no exemplo clássico: Matheus. Embora em tempos remotos da história da nossa língua o seu uso tenha tido um caráter oficial (como em theologia), não existe, hoje, qualquer justificativa linguística que faça valer essa prática ortográfica. A utilização de tal combinação só pode ser entendida pelo viés cultural, oriunda da nossa eterna mania de supervalorizar os estrangeirismos das línguas influentes, como é o caso do inglês.    É bom esclarecer, que, quando outrora empregado em nosso idioma, o th se justificava por corresponder à  letra theta dos gregos; usávamos como os latinos, somente nas palavras de etimologia grega.

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É isso!

A Origem da palavra “Chile”


A Origem da palavra “Chile”

Vem este nome da palavra "frio" que em Peru se dizia chili, em razão das regiões frígidas e nevoadas dos Andes, as quais eram obrigados a transpor os que desejavam ir do Peru para lá. Se dermos crédito aos escritores, aquele frio ali era tão intenso que tolhiam os cavalos com os cavaleiros, endurecendo-os como mármore. Os chilenos são antecos dos castelhanos. Experimentam as chuvas, os raios e as variações do ano em intervalos distintos, como na Europa, com a diferença de que, pela inversão dos solstícios, é para eles estio, quando para nós é inverno. Pode observar-se o polo antártico por causa da translação de uma nuvenzinha branca em torno dele.

A Origem do nome “Pernambuco”


A Origem do nome “Pernambuco”

Sobre a etimologia de Pernambuco assim disserta Teodoro Sampaio: "PERNAMBUCO, paranãmbuca, o furo ou entrada do lagamar; alusão à brecha natural do recife por onde o lagamar se comunica com o mar. O nome paranambuca era comum na costa do Norte, no trecho dela tomado pelos recifes, e o sentido que os índios lhe davam era o de furo, entrada, passagem natural aberta na muralha do recife. No tupi do Norte, no Nheengatu, paranã-mbuca quer dizer jorro do mar, alusão à embocadura por onde ele se escapa. Mui acertadamente escreve a propósito o autor do Castrioto Lusitano, Frei Rafael de Jesus, ao tratar do Porto do Recife: “...uma abertura à qual os naturais chamam Pernambuco, que, em sua língua, é o mesmo que pedra furada ou buraco que fez o mar de que se forma a garganta da barra...” O vocábulo — paranã = para + nã — traduz-se semelhante ao mar; é lagamar formado na junção dos rios Capiberibe e Beberibe e o furo, a abertura,  a quebrada".

“O Pai dos velhacos”


 “O Pai dos velhacos”

Havia antigamente em Lisboa uma espécie de magistrado de polícia, a quem se dava o nome de pai dos velhacos. Era o mister deste magistrado o indagar dos moços vadios que havia na cidade, ou a ela vinham ter de outras partes do reino, aos quais devia prover de amos ou mestres, que lhes ensinassem ofícios. A mesma espécie de magistratura existia na cidade do Porto, como se vê de uma provisão real existente no cartório da câmara, e passada no ano de 1535. Por este documento consta que aquele cargo era dado a um cidadão honrado, que por este serviço vencia ordenado, ou mantimento, pago por el-rei.

A origem do "Século"


A origem do "Século"

A palavra século não teve sempre a mesma significação. Os antigos tinham duas espécies de séculos: o natural e o civil. É provável que o século natural fosse em princípio a duração média da vida. Mais tarde, não foi senão, como o século civil, um período de convenção. Na origem, foi o século natural muito grande: atribui-se-lhe uma duração de 112 até 116 anos. Depois diminuiu rapidamente até aos tempos de Plínio, em que se lhe dava apenas de 25 a 30 anos. Enquanto ao século civil, de valor puramente convencional, variou-se-lhe muito a duração; e é difícil determinar-se-lhe um valor exato. Horácio, por exemplo, dá ao século 110 anos.  Atualmente dá-se ao século um valor fixo e determinado: é um espaço ide 100 anos. Tem o século de hoje maior utilidade nos usos cronológicos do que os séculos dos antigos. Serve para fixar acontecimentos de todas as épocas históricas. Remedeia os inconvenientes que os gregos quiseram evitar, criando as Olimpíadas; e tem sobre este período a vantagem de ser maior, e não exigir cálculo da parte do leitor para a determinação exata da época em que os acontecimentos tiveram lugar.

O sentido de “Lustro”


O sentido de “Lustro”

O período de 4 anos, a que os gregos davam o nome de olimpíada, era chamado lustro entre os romanos. Foi criado com o mesmo fim que as olimpíadas, e participa dos mesmos  inconvenientes. Não teve sempre o lustro a mesma duração. Sendo, a princípio, de 4 anos; prevaleceu depois o uso de se lhe darem 5: e é neste sentido que se deve tomar a palavra lustro, na época da decadência do império romano. Embora raro, ainda se atualmente se diz um lustro, para se designar um período de 5 anos. Designava esta palavra, na origem, uma festa expiatória, instituída por Sérvio Túlio, e celebrada em épocas regulares. E daí veio por extensão a significação, que geralmente se lhe dá.

Lendas Brasileiras: Sobre a "Mani"


Lendas Brasileira: Sobre a Mani
Nas lendas indígenas, Mani é uma criança branca, filha de uma índia virgem, que viveu pouco tempo. No local em que foi enterrada nasceu uma planta, a mandioca. Os índios acharam a raiz curiosa e  a comeram, passando a mandioca a ser um alimento comum em todas as tribos.

Candomblé: Quem é Iemanjá


Candomblé: Quem é Iemanjá

Iemanjá é tida como a Rainha do Mar. Cultuada nos dias de sábado, ela é identificada com Nossa Senhora do Rosário ou Nossa Senhora da Piedade. Na Bahia, seu dia é o Dois de Fevereiro, quando dezenas de embarcações despejam ao mar os presentes e oferendas: flores, espelhos, pentes, fitas e perfumes, entre outras coisas. No Rio de Janeiro, a deusa é homenageada no último dia do ano. A "Mãe D'Água" adora peixe de escama, arroz, feijão fradinho, feijão preto, xinxim de galinha e milho branco cozido, além de banana frita, coco, ovo cozido, abará, acarajé e abóbora.

Candomblé: Quem é Oxalá


Candomblé: Quem é Oxalá

Oxalá, considerado o mais importante dos orixás (deuses africanos), é a personalidade do céu. Seu fetiche é representado por conchas e limão verde dentro de um círculo de chumbo. Também conhecido como obatalá, é cultuado às sextas-feiras e, na religião cristã é identificado com o Senhor do Bonfim. Segundo os entendidos, Oxalá governará o ano de 1988. O branco é a sua cor e, de acordo com a religião afro-brasileira, seu discernimento e equilíbrio são os grandes responsáveis pela paz e tranquilidade. Oxalá gosta de milho branco, arroz cozido em água, acaçá branco, mel de abelhas, tudo servido em prato branco com rosas brancas.

Lendas Brasileiras: Sobre o Curupira


Lendas Brasileira: O Curupira

Na mitologia tupi o Curupira é um espírito da floresta, uma entidade protetora da caça que tem a forma de um anão com pés voltados para atrás. Já no Nordeste, ele é um espírito maligno da mata e identificado com o demônio da tradição cristã. O Curupira é muitas vezes confundido com a Caapora que, na tradição amazônica, é também um espírito florestal, representado por um caboclinho com um cachimbo na boca. Quem o vê, dizem, fica sem sorte o resto da vida, por isso é sinônimo de pessoa azarenta.

Candomblé: Quem é Iansã


Candomblé: Quem é Iansã

Iansã é a esposa de Xangô na mitologia negra. Orixá dos ventos e das tempestades, é cultuada às quartas-feiras. Vermelho é a sua cor predileta. Iansã aprecia o caruru, feijão fradinho cozido com camarão seco, azeite de dendê com acarajé e abará, tudo servido em prato de barro com pétalas de rosas vermelhas ou sempre-vivas.

Candomblé: Quem é Oxumaré


Candomblé: Quem é Oxumaré

Oxumaré é a serpente arco-íris. Na Bahia, Oxumaré é sincretizado como São Bartolomeu. Os dedicados a Oxumaré usam colares de contas de vidro amarelas e verdes. Seu dia é a terça-feira. Seus discípulos carregam uma serpente de ferro forjado. A Oxumaré são feitas oferendas de patos e pratos de comida onde se misturam feijão, milho e camarões cozidos no azeite de dendê.

Lendas Brasileiras: Sobre o "São Longuinho"


Lendas Brasileira: "O São Longuinho"

Longuinho é um santo da devoção do povo do Nordeste. Perdeu alguma coisa, peça ao Longuinho que logo o objeto aparece. Trata-se da versão da religiosidade popular de Longinus, cinco santos mártires registrados sob esse nome no Vaticano.

Candomblé: Quem é Obá


Candomblé: Quem é Obá

Obá é divindade do rio do mesmo nome, na África. No Brasil, quando aparece num candomblé, ata-se um turbante em sua cabeça a fim de esconder uma de suas orelhas que, conforme a lenda, foi decepada por ela mesma a fim de servi-la cozida a Xangô. Ela é sincretizada como Santa Catarina, mas não se sabe ao certo se de Alexandria, Bolonha, Gênova ou Siena. Suas oferendas em cabras, patos e galinhas d’angola.


Lendas Brasileira:  Sobre a "Igupiara"

A Igupiara é também conhecida como Iara: dona das águas. Este mito fundiu-se com outros de tradição indígena como a mãe-d'água ou o boto, espécie de golfinho que nos dias de lua cheia transforma-se em um homem bonito para seduzir as donzelas. A lenda foi sincretizada também com a tradição europeia das sereias e com o mito negro africano de Iemanjá.

Quem é "Ogum"


Candomblé: Quem é "Ogum"

Ogum é o Orixá das guerras e das lutas. Admirador do galo caipira com acaçá branco, milho vermelho, cebola e purê de inhame coberto com mel. Ogum prefere o prato de vidro. Seu culto é realizado nas terças-feiras. Na religião católica, o Orixá identifica-se com São Jorge e Santo Antônio.

Lendas Brasileira: O Negrinho do Pastoreio


Lendas Brasileira:  O Negrinho do Pastoreio

O Negrinho do Pastoreio é uma lenda gaúcha segundo a qual a alma de um "moleque" guardador de gado vaga pelos campos do pastoreio. Os vaqueiros do Sul do país acreditam que acendendo velas ao Negrinho, os animais ou objetos perdidos reaparecem.

Candomblé: Quem é “Exu”


Candomblé: Quem é “Exu”

Exu é um Orixá de múltiplos e contraditórios aspectos. É o que ensina Pierre Verger, etnólogo franco-baiano. De caráter violento, ele gosta de provocar discussões e disputas. É astucioso, grosseiro, vaidoso e indecente, a ponto dos missionários o terem comparado ao Diabo. Exu, contudo, tem seu lado bom se é tratado com consideração. É o mais humano dos Orixás, nem completamente mau, nem completamente bom. Uma espécie de intermediário entre os homens e os deuses.

Lendas Brasileira: Sobre o “Urutau”


Lendas Brasileira: Sobre o “Urutau”

Segundo a lenda do Urutau, ao entrar na puberdade, toda donzela é obrigada a sentar-se três dias seguidos sobre a pele seca dessa ave noturna. Este mito é chamado também de "chora lua" pois consta que, quando a lua surge, o canto do Urutau torna-se tão triste que a própria lua se põe a chorar. O rito tem a função de preparar as indiazinhas para o ingresso na vida sexual.

Candomblé: Quem é “Ossain”


Candomblé: Quem é “Ossain”

Ossain é a divindade plantas medicinais e litúrgicas. Suas contas são verdes e brancas e sábado é o dia consagrado ao seu culto. Suas oferendas são compostas de bode, galo e pombo. A ciência das folhas para todo tipo de uso é o forte de Ossain, que está presente em todos os rituais. Não há correspondente para ele na religião católica.

Lendas Brasileiras: Sobre o “Japu”

Lendas Brasileiras: Sobre o “Japu”

Diz a lenda que, no princípio do mundo, os tupis não conheciam o fogo e no inverno sentiam frio. O pajé da tribo escolheu então o bravo guerreiro Japu para transformá-lo num pássaro azul e buscar o fogo do raio do céu. Depois de intensa luta, o pássaro Japu conseguiu trazer o raio e foi recebido com muito entusiasmo. Ao ser desencantado, porém, Japu ficou com o rosto deformado, queimado que estava pelo fogo do céu. Ele pediu, então para o pajé transformá-lo em pássaro novamente, decepcionado que ficou com o aspecto desagradável de suas feições.

Candomblé: Quem é Xangô


Candomblé: Quem é Xangô

Xangô é o Orixá dos raios e trovões. Cultuado às quintas-feiras seus animais prediletos são o galo e o carneiro que devem ser servidos com milho vermelho, bastante camarão seco, cebola branca, feijão preto e acaçá de milho vermelho. Os vasilhames de Xangô são de barro cozido.

A Origem da festa de São João


A Origem da festa de São João
As origens das festas juninas estão entre rituais pagãos, sobretudo, os que lidavam com o elemento fogo. Eram cerimônias destinadas a conjurar maus espíritos, responsáveis pelas pragas das lavouras, a ausência de chuvas e outros males que afetam a colheita. Tanto que eram realizados em fins de junho, quando começa o verão no Hemisfério Norte e também a colheita. O cristianismo adaptou estes hábitos populares pagãos, associando as festividades ao nascimento de São João Batista, em 24 de junho. Foram os portugueses que trouxeram para o Brasil.

15 de ago de 2018

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25 de mai de 2018

A etimologia de "Farroupilha"


A etimologia de "Farroupilha"

A abonação mais antiga deste termo, em documentos oficiais do século XVIII, foi encontrada pelo indefesso pesquisador rio-grandense Aurélio Porto, a quem a história pátria já deve tantos esclarecimentos. Chamavam-se ali, depreciativamente, farroupilhas uns descontentes nas proximidades do Rio de Janeiro, que vieram à capital protestar contra medidas do governo daquele “tempo do onça”.

O que significava esse termo, diz-nos em 1727 o pai da lexicografia portuguesa, o Pe. Bluteau, no Supplemento ao Vocabulario: “FARROUBILHA: Termo chulo. O que anda mal vestido e desfarrapado; pobretão." Neste primeiro registro da palavra, o qual parece ter passado despercebido até hoje, o bom Bluteau enganou-se decerto, quanto ao b em vez do p de farroupilha, bem como no d insólito antes de esfarrapado.

Em 1813 escreve o carioca Moraes Silva na celebrada 2ª edição do seu Diccionario: "FARROUPILHA: pessoa esfarrapada", ao que a última 9ª edição só acrescentou: "maltrapilho, pelintra". O Diccionario de Constâncio, cuja 1ª edição é de 1836, dá também “FARROUPILHA: pessoa esfarrapada", o que copiaram fielmente os de Faria e Lacerda. De 1837 data o Diccionario de Synonymos de José da Fonseca, que mais tarde Roquete e Faria acrescentaram aos seus. Eis que lá se acha: "Farroupilha, esfarrapado, farrapão, maltrapilho".

Evidencia-se daí que já antes e independentemente da revolução rio-grandense de 1835, vivia farroupilha qual termo geral português. Não há dicionário posterior que o não registre, como naturalmente também o de Domingos Vieira de 1873. Contemporâneo de 1881 dá até uma abonação de Castilho, não influenciado, decerto, pela revolução gaúcha: "Acolho um farroupilha, dou-lhe a minha alma, e ele, até a mulher, me quis roubar." Farroupilha não é, pois, somente termo regional ou nacional brasileiro, mas genuíno português d'aquém e d'além mar.

Farroupilha derivaria de farroupo? Esta palavra, segundo o Elucidário de Viterbo, que com mais correção escreve farropo (autorizado também por Gonçalves Viana), designou no século XV provavelmente carneiro (grande e castrado), como em Turquel, perto de Alcobaça na Extremadura, ainda é o cordeiro (Cândido de Figueiredo). Hoje, porém, "em algumas terras" (Viterbo), sobretudo "no Alentejo" (Conde de Ficalho), passou a significar o porco (grande e castrado). Moraes, já em 1813, cita a respeito o "Regimento dos verdes e montados": "Farroupo é o porco que ainda não passa de ano". Acrescenta também o diminutivo Farroupinho, o porco de menos de um ano, que já não é bácoro; o marranito ou bacorote, como diz José da Fonseca.

Esse farroupo, ou antes farropo, vem possivelmente do árabe charuf ou charof (carneiro, cordeiro), dum modo semelhante como de al-charrub tiramos alfarroba. Em todo caso, farroupo parece termo raro, quase obsoleto, só em algumas regiões de Portugal usado para porco e antigamente para carneiro.

Derivar desse nome regional, quase desconhecido, o universal farroupilha, já de antemão se afigura improvável. Só Aulete aventurou, dubitativamente e em segundo lugar, para farroupilha uma "formação da raiz farrapo (ou farroupo?)”

Mas, neste último caso, era de esperar o masculino farroupilho, significando porquinho ou primitivamente carneirinho, sendo daí difícil a passagem semântica para o sentido esfarrapado, indicado por todos desde Bluteau. Tanto mais que farrapo estava à mão, admitido também expressamente por Constâncio, Faria, Lacerda, pelos competentes Adolfo Coelho e Gonçalves Viana, por Figueiredo, Lemos, Jackson, Silva Bastos, Brunswick, Séguier, Antenor Nascentes, o próprio Aulete em primeiro lugar, por todos enfim! E veremos adiante como essa etimologia de farrapo, ou antes farpa, plenamente se justifica.

Vejamos agora a etimologia de farrapo ou farpa, para preparar a de farroupilha. Sem entrarmos em minúcias, aqui numerosas e complicadas, basta dizer que a última ciência etimológica, representada sobretudo pela 3ª edição, agora em 1935 terminada, do Romanisches Etymologisches Wóterbuch de Meyver-Lübke, corrobora cada vez mais a probabilidade de virem tanto farrapo, como farpa e felpa dum mesmo radical galo-romano. Como tal adopta Meyer-Lübke, segundo glossários do X século, o latim medieval faluppa, (palhinha) modificado também para falapa, frapa, farupa, etc. Daí viriam o italiano frappa, igual ao nosso farpa, ao antigo francês frepe, ferpe, felpe, de onde tiramos felpa, etc. Farrapo mesmo será um substantivo verbal de farpar, que se alargou para fa(r)rapar, usado por Gil Vicente. O rr dobra do português farrapo aparece ainda simples no correspondente espanhol harapo, mas com tendência de duplicar-se em arrapo e des(h)arrapado. O antigo espanhol haldrapa, haldraposo, insinua uma influência de drapo = trapo (francês drap), que determinou talvez também a forma masculina harapo, farrapo, a despeito de farpa feminina.

Pode derivar-se agora, de um modo mais inteligível, farroupilha de farrapo ou antes farpo, o que no fundo vale o mesmo. A terminação diminutiva ilha, propriamente feminina, pressupõe um étimo feminino, como também farpela, pela mesma razão, deve ser derivada antes de farpa que de farrapo. Pois bem, por analogia de farpela, “roupa reles”, admitamos farpilha, de sentido semelhante. Esta forma alargou-se, porém, fa(r)ropilha, quase como farpar para farrapar, farrapo, só que tomou o o: farropilha (sendo ou de farroupilha capricho ortográfico. Esse o se explica: ou por certa predileção da labial (p) por o, do que Cornu dá bastantes exemplos, sendo conhecidíssimo: por em vez de per, ou por um regresso, marcado com formas hoje extintas, aos étimos antigos foluppa, faruppa, faropa etc. Corresponde assim, por exemplo, no mesmo radical, ao piemontês flapa (casulo), o toscano-lombardo falopa. Não se esqueça, aliás, que farropilha é forma popular, chula segundo Bluteau, onde as vogais variam às vezes como ao acaso, não admirando assim a mudança de farpilha para farropilha. Comparem-se as formas populares francesas, do mesmo radical e sentido (= farropilha, maroto): antigo frapaille, moderno frapouille ou fripouille.

O significado de farropilha teria sido, na origem, quase o mesmo que farpella ou “roupa esfarrapada”. Cedo, porém, passou o termo a designar um homem1 vestido de tal roupa, um esfarrapado, tornando-se assim também masculino. Disto não faltam exemplos, até da mesma desinência: o pandilha é o cumplice duma pandilha ou “panelinha conluiada”; o potrilha é propriamente um atacado da potra (ou da potrilha); o bigorrilha parece corruptela popular do figurilha (que faz uma figurilha ou figura pequena, um vil ou miserável). Significativo é que Cândido de Figueiredo explica tanto o pandilha, como o potrilha por farroupilha e bigorrilha! Usa-se no sul do Brasil também o americanismo espanhol: o cajetilha, para designar um habitante presumido das cidades, nome derivado de cajetilla (caixinha), talvez por significar (caixinha), de cajeta (de trinque).

Lembremos ainda que também o galego tem farroupeiro (esfarrapado ou farropilha) Ponderando tudo, convencer-nos-emos de que farropilha é tuna antiga herança da língua popular portuguesa, herança que faríamos mal em trocar por um artificial farrapilha que como tal nunca viveu.

Por fim, a questão da ortografia exata: farroupilha ou farropilha? Sem dúvida alguma, à vista da derivação exposta, não se vê em nada justificado o ou, que deveria representar um au, al, oc ou o-i primitivos, que aqui nunca existiram. Por qualquer capricho, começou-se a escrever uma vez farroupilha, talvez por instintiva assimilação a roupa. E assim ficou, graças à rotina ou à célebre lei da inércia. Já vimos que, no diferente farroupo, Viterbo citou dos documentos a forma correta farropo, não aceita contudo. E temos mais o toucinho, a garoupa ou choupa etc., com ou indevidos.

Mas neste tempo da simplificação ortográfica, poderíamos e deveríamos restabelecer a grafia correta: farropilha, farropo etc. Vemos, porém, que se alteram a talante símbolos antiquíssimos, fundados na história da língua e aconselhados pelo bom senso já para distinguir mas formas meramente arbitrárias, introduzidas por acaso e por capricho mantidas, conservam-se carinhosamente, sem utilidade nem razão. Receemos que também farroupilha vá gozar desse privilégio, embora este, como outras regalias nunca tenham entrado nas aspirações dos verdadeiros farropilhas!

J. A. Padberg-Drenkpol
Revista "Excelsior", abril de 1935.

O significado de "Consoada"


O significado de "Consoada"

Interessante é a origem da palavra consoada, que é um banquete realizado na véspera de Natal, ou um “presente que se dá desde o Natal aos Reis”, e, em geral, qualquer "refeição ligeira que se toma à noite nos dias de jejum" (Lelo Universal). Desde Constâncio (1836) pensaram muitos, até Aulete e ainda Cândido de Figueiredo, numa derivação de consolar, como se a consoada fosse para consolar-se do jejum precedente. Domingos Vieira viu em consoar, uma modificação de con-cear (cear juntos). Outros propuseram como étimos até o latim contio de conventio (reunião), ou simplesmente con-sonare, sendo a consoada uma espécie de consonância.

A verdadeira origem, porém, ficou revelada pela grande romanista germano-portuguesa Carolina Michaëlis de Vasconcellos. Aponta ela o advérbio arcaico suum (suû, sum) que não é outra coisa senão o latim subunum = in unum: juntamente, em companhia, e que ocorre precedido de em, de, de com: em suum, de suum, de consuum. Desta última locução antiga deriva consoar ou propriamente consuar (consubunare: coadunar-se), sendo, pois, a consoada no fundo uma reunião cordial, uma espécie de ágape, ou como bem traduziu Bento Pereira há centenas de anos: symposium: banquete em comum.


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É isso!

A etimologia de “Berlim”


A etimologia de “Berlim”

Apesar da existência de um urso nas armas da cidade, parece pouco provável que Berlim venha de Bear (urso). Assim se recorreu para explicar a formação da palavra, a várias etimologias eslavas. Outra teoria, porém, diz que a origem de tal termo derivaria do céltico biodin, espécie de balsa para a travessia de rios, ou então bairlin, que quer dizer dique, cais. Já para um tal Leger, que foi uma eminente autoridade em linguística do século XIX, o vocábulo origina-se de berl, que no antigo eslavo significava fortaleza fortificada. Todavia, para além dessas teorias, a controvérsia ainda persiste.


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É isso!

A etimologia de “Jiboia”

A etimologia de “Jiboia”

Segundo Teodoro Sampaio, a palavra jiboia vem do tupi (gi-hi-boi) e significa “cobra das rãs”. A etimologia parece fazer sentido, tendo em vista que muitos ofídios eram denominados por mboi/mboia, precedido de um nome de animal. Por exemplo: paruaboia (cobra do papagaio), tarauyra-boia (cobra da formiga tarauyra), tucano-boia (cobra do tucano), cururu-boia (cobra do sapo cururu) etc. 


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É isso!

O significado de “Tiririca”


O significado de “Tiririca”

De tiririca, diz o etimólogo Teodoro Sampaio que é o gerúndio-supino de tiriri, que significa cortar. Para B. Caetano, o gerúndio tyryry quer dizer: arrastar, ir de rojo ou rastos. Sabe-se que tiririca é a denominação comum de plantas de diferentes gêneros, da família das ciperáceas, as quais alastram-se com facilidade pela terra, daí a sua correta etimologia. Na linguagem coloquial, o termo também denota uma pessoa dominada pela raiva, que “fica tiririca da vida”.


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É isso!

A Origem de “Pirapora”

A Origem de “Pirapora”

Pirapora, nome de cidades do Brasil, é de origem tupi, nome este traduzido por “a morada do peixe”. Porém, segundo Teodoro Sampaio, tal termo significa também “o peixe salta” (peixepirá, e saltopora ou pura).

A curiosa origem de “Canguru”


A curiosa origem de “Canguru”

Li recentemente que a palavra Canguru (kangaroo) provém de uma curiosa confusão. Quando o célebre capitão Cok estudava as costas da Austrália, ainda desconhecidas, e povoadas unicamente pelos Papous, avistou um dia à beira-mar um indígena que acabava de matar um animal, o qual tinha um aspecto muito estranho. Cok mandou logo uma embarcação para terra, e o chefe que a comandava conseguiu comprar o bicho, que não tinha semelhança com nenhum outro animal conhecido. Cok enviou novamente o oficial para procurar saber como os indígenas chamavam a esse animal desconhecido. Já que não conhecia absolutamente a língua deles, o inglês só podia interrogar por gestos. A única resposta que conseguiu foi: Kan-gou-rou. Voltou para bordo e anunciou que o animal era um kangourou. O nome pegou e espalhou-se por toda a Europa. Na Austrália, porém, era totalmente ignorado, e depois que se estudou a língua dos Papous a confusão ficou explicada. O indígena, que não percebia absolutamente o que o marinheiro procurava, respondeu-lhe " Kan-gou-rou” , o que não era o nome do bicho mas significava "Não compreendo".

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É isso!

A respeito do “Beijo” e do “Ósculo”

A respeito do “Beijo” e do “Ósculo”

Beijo não tem outra etimologia senão a harmonia imitativa a que os gregos chamam onomatopeia.  

Ósculo vem de os, oris, que quer dizer boca.  De maneira que ósculo significa literalmente “movimento de boca”.  

Beijo
é uma palavra comum. 
Ósculo é palavra poética. 
O mundo dá beijos. A poesia dá ósculos
O beijo pode ser lascivo. 
O ósculo é sempre puro e terno.


18 de mai de 2018

Etimologia mística de “Jerusalém”


Etimologia mística de “Jerusalém”

No cume dum cerro nu, dominando os vales erguiam-se as grossas muralhas de  Jebusalaim, capital dos jebuseus, inexpugnável  e altiva, encerrando a sua fonte perene de Gihon, que passou a se chamar Fonte da Virgem. O monte fortificado e povoado de Sion desafiava a cobiça dos hebreus, que empreendiam vagarosamente a conquista difícil da Palestina. Saul deixara várias vezes a cidade de Gabaa e impelira os seus soldados até à base dos muros desafiadores; mas a falta de recursos e de máquinas de guerra o forçava a não dar início ao cerco.

Porém o talento político e estratégico de Davi, quando guiou a nação dos Beni-lsrael, compreendeu quanto representaria para o futuro de seu povo e para o completo domínio da região a posse da fortificação jebusita. Sua obra era a continuação da obra dos sufetas ou juízes, unir a nação, dar fim às rivalidades, ter sempre sob a mão Efraim e Judá, e tirar do seio do povo de Jacó todos os espinhos dolorosos. Desses o maior era aquele constante, impertinente desdém da forte Salim (lugar de segurança), povoação destinada a centralizar o governo real e a simbolizar a homogeneidade do povo de laveh. Diz Renan que foi Davi quem criou Jerusalém, quem fez da capital israelita o polo magnético do amor e da poesia religiosa do mundo.

Os grandes doutores da Igreja arranjaram  etimologias místicas simbólicas para esse nome singelo de Jebusalaim (fortaleza dos Jebuseus). São Jerônimo divide deste modo: Jebu, Salém + Jerusalém. Jebu quer dizer calcada aos pés, salém  significa paz, e a combinação adulterada dos  dois, Jerusalém,  traduz-se por visão de paz.  A  divisão ternária representa a Santíssima Trindade e a explicação da origem da palavra é inteiramente mística. Só depois de calcada aos pés, de humilhada, a gente se pôde elevar até à paz. Para o mesmo  santo, Adão vivera os últimos anos de sua  vida e morrera nessa ditosa cidade, sendo sepultado na colina do Calvário, de maneira que o  lugar onde se enterrara o homem que cometera o primeiro pecado vira o sacrifício do "homem” (Jesus) que veio resgatar todos os pecados. Santo Agostinho apoia a mesma etimologia. A designação  Hierosolima, de puro sabor grego, é uma criação romana. Ela aparece a primeira vez no discurso de Cícero – “Ad Atticus”.

João do Norte (1921).

23 de nov de 2016

A etimologia da palavra “Emboaba”

A etimologia da palavra “Emboaba”
Procediam os portugueses inversamente, abreviando, segundo o gênio do seu idioma, as palavras longas dos índios. Temos exemplos nos nomes das plantas, dos animais e dos lugares, quase os únicos que do vocabulário indígena passaram para o brasileiro. Aqui damos um exemplo:

De bacobá (kir) ou pa cobá (guaro) fizeram os portugueses pacoba ou pacova (banana).
De porog, cuia ou cabaço vazio, fizeram porongo ou vurungo.
De irará (eira: mel, yard: colher) fizeram irara (o papa mel).
De guabirá, guabiró fizeram guabiroba, guavirova.
De pag fizeram paca.
De mandiog fizeram mandioca.
Goyó-covo (o rio Iguaçu), Goyó-en (o Uruguai), Guayra (o celebre salto do Paraná, Urubupungá (cachoeira notável do mesmo rio) Came (nação), Paraná, Paranaguá se deviam escrever Goyó-coro, Goyó-en, Guayrá, Urubupungá (e o sr. Cândido Mendes escreve assim no seu Atlas, e também o sr. Pompeu na sua Geographia), Camé, Paráná, Paránaguá. Entretanto no Paraná pronuncia-se Goyó-covo, Goyó-en, Gudyra, Urubúpúngá, Cam.
Não é pois fora do natural que de abomboaé fizessem os portugueses abambode, abamboá (cabelo diferente).
De abamboá para mbamboá é facílima a passagem, atendendo à propriedade do b medial para atrair o m. Esta regra, mui conhecida nas línguas americanas e africanas (assim como a do d para atrair o n), corresponde à análoga das línguas neolatinas, em que o m tem a propriedade de atrair o b, e o n o d. E a perda do a inicial é outro fato geralmente conhecido.
Não há pois dificuldade para converter abamboá em mbamboá.
Mas, pela mesma razão que do guarani guabirá, guabiró fizeram os portugueses guabiraba, guabiroba, fizeram de mbamboá, mbamboaba, mbamboava.
Uma vez nacionalizada a palavra, decorre naturalmente o boava, como hoje se diz em São Paulo e no Paraná.
O som nasal de mb, nd, ng é de todas as línguas, é da fonética geral do homem, e não somente das línguas americanas, como se persuadiu o nosso sábio indianólogo Sr. Dr. Batista Caetano. Desde muito haviam os linguistas reparado que nas línguas dravidianas, por exemplo, palavra alguma começava por explosiva fraca, g, d, b; e quanto às línguas africanas, mais ou menos conhecidas no Brasil, lembraremos que no bunda ou angolano e no congo são tão comuns como no guarani e no tupi os sons nasais de mb, ad, ng. Chamaremos a memória do leitor para as palavras ngola (nação), nbonde (reino), ngana (senhor), ndendê (palmeira), mbunda (nação), mbdca (nação), marimbondo (inceto), ngunga (sino), macamba (gente do mesmo bando), mumbica (ruim), mandinga (remédio), samba (adoração a Deus), muxinga (chicote), canga (emparelhar, jungir dois a dois), tanga (saiote), cabungo (urinol), mucamba (criada), pango (uma erva que se pita como o tabaco), banzé (súcia), zungu (barulho), candonga (mentira), cacunda (costas), candombe (dança), jongo (dança), quibando (peneira), mulambo (farrapos), catinga (mau cheiro), munjolo (máquina de pisar grãos), marimbau ou mbirimbau (instrumento músico), fandango (dança), bumbo (tambor), quingombó (erva comestível), berinjela (idem), cumbuca (cuia), maganga (chefe, principal), macazamba (torto, feio) e infinitas outras que ouvimos tantas vezes e vemos em Cannecattim.
Entretanto as línguas neolatinas não admitem as nasais mb, nd, ng, sem que sejam precedidas de vogal. E daí vem que daquelas palavras africanas as que ficaram no brasileiro ou perderam a primeira consoante ou tomaram vogal inicial: mbirimbau ficou berimbau, ou converteu-se em marimbau; ngana passou a angana; Ngola a Angola ; mbaca perdeu o m inicial e ficou baca; mbunda ficou ambunda e também bunda; nbonde passou a anbonde, e depois a bonde.
Finalmente a troca do b pelo v, e vice-versa, é fato constante nos portugueses; e o venerável Anchieta, exemplificando a mudança que fazem os galegos do b para o v, aponta a palavra abá: “ut pro abá dizendo avá”.
Daí ambouba, mboaba, mboava, boava.
Foi esta última forma, boava que ficou no Paraná e interior de São Paulo, como alcunha dada não só aos portugueses, mas ainda aos filhos da terra que, nos traços do rosto, na cor, no acento carregado da palavra, na quadratura figura, no gesto bruto e pesado, se parecem com os incultos filhos de fora. “É um boava” dizem lá como nós aqui: “É um galego”.
Aforou-se o vocábulo como próprio e exclusivo do dialeto brasileiro. No princípio abambaaéabá, amamboaé, mambode, ambode, emboava, boava, uma delas era a voz com que o gentio do Brasil denotava a gente estranha que, pela vez primeira, pisava as suas praias, invadia os seus campos, rasgava os rios, embrenhava-se pelas florestas, devassava-lhe os segredos do lar. Emboabas eram os paulistas, os mineiros, os goianos, os cuiabanos, os portugueses de qualquer parte que surgissem.
Do Oiapoque ao Prata, do Oceano ao Paraguai há entre as diversas tribos uma palavra para designar o inimigo, o invasor, a gente nova, o estranho, o filho de fora. Na costa, em geral, entre os tupis o estrangeiro é o tapuia (aquele que não é tupi), isto é, o selvagem, contraposto ao índio civilizado, domesticado, índio manso, índio tupi (tanto é certo que as ideias de paz e de ordem são, no coração dos homens e dos povos, correlatas de civilização!)
No Maranhão chamam-se os Caraús de cupés, os brancos, os que não são bronzeados como eles, os diferentes, os outros, os estranhos.
Em Goiás apelidam os Chambioás aos cristãos de turís.
Nas Missões os brancos são caraíbas; e ainda hoje no Paraguai o índio se orgulha chamando-se de abá (o homem por excelência), em contraposição ao caray (o estrangeiro), que ninguém sabe donde vem, gente à toa.
Entre os bugres de Guarapuava, os portugueses, sinônimo de estrangeiros, são cuprís, isto é, os brancos, quase os cupés dos Caraús, e um pouco dos turís dos Chambioás.
Os Caiuás, dos aldeamentos à margem do Paranapanema, no Paraná, chamam os brancos de caraíbas, que cor- respondem aos caraíbas dos guaranis paraguaios.
Note-se que caraíba quer dizer astucioso, manhoso, e se aplicava especialmente ao feiticeiro, que tinha partes com o diabo. Y assi Io aplicaron a los Españoles, e muy impropriamente al nombre cristiano, y a cosas benditas, y assi no usamos del en estos sentidos — diz Montoya, queixoso de tanta irreverência; mas sem razão, que os pobres dos selvagens a tinham às carradas.
Os franceses são tapuy-tingas, tapuias brancos, tapuias outros, inimigos de fora da terra, descendentes de outra raça que não a americana.
Nos sertões do Mucuri os brancos são os chretonhe, kretonhe, cristãos, como os portugueses se apelidavam, aparentando terem vindo à América com o pio fim de dilatar a fé de Cristo.
Ainda hoje os Caiuás tratam os estrangeiros de amôabá (gente estranha, homem diferente).
Era, assim, por esse tempo, emboaba voz exclusiva do índio para apelidar o português; mas depois, tomada pelos invasores a posse da terra, nacionalizados os portugueses em paulistas, mineiros, goianos, cuiabanos, baianos, maranhenses, pernambucanos, eram eles, não mais os índios, os senhores da terra, e seus filhos os naturais dela. Emboabas, não, já não o eram: o emboaba era o estrangeiro, e o estrangeiro, o não brasileiro, era o recém-chegado do Reino.
Destarte pouco a pouco foi a alcunha ficando só para os portugueses, cuja avidez dos bens do Brasil e sobranceria aos naturais dele os fazia odiados de todos os moradores, fossem índios ou brasileiros. No motim do rio das Mortes, território das Minas (1708), chamado a Guerra dos Embobas, o índio não apareceu: brigaram os emboabas (ou os portugueses) com os paulistas (ou os brasileiros).
Esse ciúme de nacionalidade perdurou até se consolidar a nossa independência política; e são conhecidos os barulhos a que deu lugar no Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco, Maranhão, Pará, em toda a parte.
O português, o pé de chumbo, o galego, o mariola, o marinheiro, o lapuz (não havia apelido ridículo que se lhe poupasse, e até lhe encurtavam o nome do país e da pátria, chamando- de portuga!) era, nada mais, nada menos, o emboaba dos tempos coloniais: primeiro, o português que vexava o índio; depois, o português que vexava o brasileiro.
Sem fazer grande cabedal do modo da formação etimológica da palavra emboaba, venha de aba-mboaé-abá, ou de amoabá, ou de amôaba, ou de amboaé-hab (particípio de aycó: ser), o essencial de assentar é a significação lexicográfica. Ora cremos ter tirado a limpo que emboaba nunca significou o calçudo, pernivestido, expressão de mofa ou desprezo; porém sim, e só, sempre o estrangeiro, o homem de fora, o inimigo oriundo de outra raça, o português, expressão de desconfiança a princípio, de ódio depois, e ódio plenamente justificado para com as feras que Portugal alijava aos montes nas praias da colônia.


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A. J. de Macedo Soares (Revista Brasileira, setembro de 1879 – Adaptação ortográfica: Iba Mendes)