29 de ago de 2016

O significado do nome Bismarck

Li num jornal do século passado que o nome Bismarck (Otto von Bismarck, grande estadista alemão do século XIX) viria por corrupção de bischoff (bispo) e mark (limite, fronteira), e significaria, por consequência: fronteira do bispo, isto é, circunscrição episcopal. Os antepassados do chanceler alemão foram de fato os primeiros personagens do bispado de Haiberstadt.


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É isso!

A simplicidade da Letra

A letra é um símbolo muito mais simples e tratável que a imagem. Isto decorre da própria etimologia de letra. O célebre antiquário Vossius deu para o radical do termo letra uma palavra grega - litos - que é em latim exatamente simplex, exilis: coisa simples. De litos o legere romano, de onde litera é para nós letra.


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É isso!

26 de ago de 2016

A origem do biscoito

A forma mais antiga de se utilizar da farinha de trigo é o biscoito. Ninguém, porém, pode afirmar em que época foi, pela primeira vez, empregada a fermentação para se fazer o pão, mas o que incontestável é que os bolos feitos com farinha e águas, sem fermentação, que é o biscoito, é muito mais antigo do que o pão. Li num periódico que no fundo das camadas dos lagos da Suíça que datam da idade neolítica, foram achados bolos feitos de farinha e água, sem fermentação. O biscoito é, portanto, a forma primitiva da utilização da farinha de trigo e tem a vantagem de se conservar muito tempo e ser de fácil fabricação. Quase todas as nações antigas usavam de biscoitos nas guerras e nas longas viagens terrestres e marítimas. Os gregos davam-lhes um nome, que equivale a "pão que vai duas vezes ao fogo", e os romanos a denominavam de panis nauticus. A palavra biscoito significa que a preparação da massa ia "duas vezes" (bis) ao fogo, e os franceses dizem biscuit: bis (duas vezes) e cocto (cozido). Atualmente o processo de fabricar biscoitos é bem diferente, pois vai ao fogo uma só vez. Sobre o assunto ironizou alguém num jornal de 1888: "Daqui a alguns séculos os etimologistas atrapalhados para aplicarem a origem da palavra biscoito, indo uma só vez ao fogo, hão de descobrir em qualquer língua Welche que bis significa um."



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É isso!

A origem do Jornal

A palavra jornal origina-se do francês journal, que por sua vez tem origem no italiano digionale (formado de diurnalis, derivado de dies, jour), que significa diário. No século XIX, aqui no Brasil, o termo foi duramente atacado pelos puristas da língua, como foi o caso de Felinto Elysio, que via a palavra como um "galicismo intolerável", sugerindo que se empregasse tão somente a palavra diário para se referir ao periódico diário. Para ele tal termo deveria ser usado apenas em referência ao que o jornaleiro ganha diariamente, o pagamento feito por dia de trabalho (diária, féria, remuneração). O pedantismo linguístico, porém, fora superado e ninguém mais questiona o uso do vocábulo para designar a publicação periódica (geralmente diária), a qual contém notícias nacionais e internacionais, editoriais, artigos, quadrinhos, classificados, anúncios etc. Também é sinônimo de: folha, gazeta e periódico.



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É isso!

A origem da Rússia

Especula-se que tal palavra referia-se na sua origem ao Rio Neman: russ, russia, ou da palavra finlandesa ruotsi, com a qual os finlandeses designavam os estrangeiros, e mais particularmente os suecos, que se estabeleciam na costa oriental do Báltico, pela embocadura do Niemen. Apenas no século IX é que o nome de russos (ou rossos) começou a figurar na história.  Foi no ano de 839 que uma embaixada de russos se apresentou em Constantinopla, e em 852, que uma flotilha russa entrou nas águas do Bósforo. O fundador da Rússia foi Rurick, chefe dos yareghs, povo estabelecido nas margens do Báltico, nas proximidades da embocadura do Niemen.



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A origem do Senado

Do latim Senex (velho) origina-se a palavra Senado (senatus), que representa um congresso de homens de certa idade para cima (entre nós 40, 35  e agora de 29 anos), aos quais são confiados os negócios do estado da mais alta importância, levando-se em conta que só em certa idade é que o homem com sua notável  experiência e o exercício de certas habilidades, e com o fruto de suas lucubrações pode, apresentando certo grau de instrução, tomar decisões mais segura e acertadamente, não apenas porque o muito errar lhe tem ensinado a acertar, como porque certas paixões que deslumbrarão os olhos da mocidade, já neles não tem preponderância.

Na Roma antiga referia-se à assembleia dos patrícios, que constituía o Conselho supremo da nação.

O senado brasileiro é uma das duas casas legislativas que formam o Congresso Nacional, composta de representantes dos estados da federação e do Distrito Federal, eleitos pelo voto popular direto a mandatos de quatro anos, passíveis de reeleição.



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É isso”!

A origem da cariátide

A palavra cariátide é um termo utilizado na Arquitetura e se refere a coluna ou pilastra, originária da Grécia antiga, geralmente com a forma de figura feminina, para sustentar cornijas ou arquitrave (Michaelis). Segundo um documento que encontrei de 1859, o termo tem a seguinte procedência:


“Tendo os habitantes da Cária feito uma aliança com os persas contra outros gregos, estes subjugaram os primeiros e passaram os homens ao fio da espada, fazendo as mulheres suas escravas e obrigando as infelizes a conservarem seus compridos vestidos e ornatos, para simbolizar a expiação daquele crime.  Os arquitetos, na sua santa indignação contra os traidores, substituíram as colunas e pilastras por mulheres vestidas como as carítas, para transmitir à posteridade a maneira do seu cativeiro e infame traição que lhe deu causa. Tal é a origem da palavra, que se aplica desde então, tanto na escultura como na arquitetura, a todas as estátuas de mulher, todas ou parte vestidas, e que se colocam em lugar de colunas, para sara sustentar os entablamentos. ”


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É isso"!

As etimologias de Maria segundo o Padre Vieira

Em seu belíssimo “Sermão do Santíssimo Nome de Maria”, o genial Padre Antônio Vieira (um dos maiores oradores da Língua Portuguesa em todos os tempos) nos brindas com a sua sapiência e o seu vasto conhecimento da etimologia latina. Fazendo uso de expressões da língua de Roma, exalta ele as virtudes de Maria (mãe de Jesus Cristo), justificando-as pelo viés etimológico e teológico. Se não nos convence com sua Teologia, certamente persuade-nos com sua habilidade no manejo correto do nosso idioma. Vejamos...

As significações do nome de Maria: Stella Maris, Domina, Illuminatrix, Amarum mare, Deus ex genere meo.

Depois de declarado quem foi e quem só podia ser o autor do nome de Maria, que foi Deus, segue-se, como prometi, examinar a significação ou signifi­cações do mesmo nome. A língua hebreia, a caldaica, a siríaca, a arábica, a grega, a latina, todas conspiram em o derivar de diversas raízes e origens, por onde não é uma só, senão muitas as etimologias deste profundíssimo e fecundíssimo nome, e o mesmo nome, segundo a propriedade de suas significações, não um só nome, senão muitos nomes.

 A primeira etimologia, e sabida de todos, é que o nome de Maria significa Stella maris: estrela do mar. O mar é este mundo, cheio de tantos perigos, combatido de todos os ventos, exposto a tão frequentes tempestades, e em uma tão larga, temerosa e escura navegação, quem poderia chegar ao porto do céu, se não fosse guiado de lá por aquela benigníssima estrela? Quibus auxiliis possunt naves inter tot pericula pertransire usque ad littus patriae? Por que meio poderão os navegantes, entre tantos perigos, chegar às praias da pátria? – pergunta o Papa Inocêncio III – e responde que só por meio de duas coisas: nau e estrela. A nau é o lenho da Cruz, a estrela é Maria: Certe per duo, videlicet, per lignum et stellam, ide est, per lidem crucis et virtutem lucis, quam peperit nobis Maria maris stella.

A segunda significação e etimologia do nome de Maria é Domina, Senhora por antonomásia, porque do seu domínio e império nenhuma coisa se exclui: Senhora do céu e Senhora da terra, Senhora dos homens e Senhora dos Anjos, e até Senhora por modo inefável do mesmo Criador do céu e da terra, o qual lhe quis ser, e foi sujeito. Ouçamos o altíssimo pensamento de S. Bernardino, e tão verdadeiro como alto: Ille qui Filius Dei est et Virginis benedictae, volens paterno principatui quodammodo principatum aequiparare, ut sic dicam, maternum in se qui Deus erat, matri famulabatur in terra: Aquele Senhor, que é Filho de Deus e da Virgem, querendo em certo modo igualar o senhorio de sua Mãe ao senhorio de seu Pai, se sujeitou e fez súdito da mesma Mãe na terra. – E isto com tanta verdade – conclui o santo – que assim como verdadeiramente dizemos que todas as coisas obedecem a Deus, até Maria, assim é verdadeiro dizer que todas as coi­sas obedecem a Maria, até Deus: Sicut verum est divino imperio omnia famulan­tur, et Virgo, ita quoque verum est Virginis imperio omnia famulantur, et Deus.

A terceira etimologia e interpretação do nome de Maria é Illuminatrix, ou Illuminans eos, isto é, a que alumia a todos os homens. Por isso é comparada a Senhora àquela coluna de fogo que de noite alumiava todo o exército e povo de Israel no deserto, enquanto caminhavam peregrinos para a Terra de Promissão: Tolle corpus hoc solare, qui diminuta mundum: ubi dies? Tolle Mariam, quid nisi caligo involvens, et umbra mortis, et densissimae tenebrae relinquuntur? Tirai do mundo este corpo solar, esta tocha universal, que o alumia diz – S. Bernardo – e onde estará então o dia, ou quem o fará? – Do mesmo modo, se tirardes do mundo a Maria, tudo ficará às escuras, tudo trevas, tudo sombras mortais, tudo uma noite perpétua, sem que jamais amanheça. – E que muito é – diz o mesmo santo – que Maria alumie a terra e os homens, se, depois que entrou no céu, a mesma pátria dos bem-aventurados e a mesma Corte do empíreo ficou muito mais alumiada e ilustrada com os res­plendores de sua presença? Mariae praesentia totus illustratur orbis, et ipsa jam caelestis patria clarior rutilat virgineae lampadis irradiata fulgore.

A quarta interpretação, e que parece menos alegre, do docíssimo nome de Maria é Amarum mare: mar amargoso. Mas como podem caber as amarguras do mar, ou um mar inteiro de amargura, no nome daquela Senhora a quem nós saudamos e invocamos com ode doçura nossa? Já se vê que aludem estas amargu­ras às dores do pé da Cruz, das quais estava profetizado com o mesmo nome de mar: Magna est velut mare contritio tua (Grande é como o mar o teu desfalecimento” - Lam. 2, 13). – Mas, posto que as águas daquele turbulento mar foram tão amargosas para a Mãe angustiada que as padeceu, para nós, que logramos os efeitos delas, são muito doces. Porque, ainda que a miseri­córdia da Senhora foi sempre grande, as dores que então experimentou, fez a mesma misericórdia mais pronta para socorrer e remediar as nossas. Não tem menos autor esse reparo daquelas amarguras que o angélico Santo Tomás. Diz S. Paulo que Cristo quis padecer para se poder compadecer de nós: Non habemus pontifi­cem, qui non possit compati infirmitatibus nostris, tentatum per omnia (“Não temos um pontífice que não possa compadecer-se das nossas enfermidades, mas que foi tentado em todas as coisas” - Hebr. 4, 15). – Pois Cristo, ainda que não fosse possível, nem padecesse, não se podia compadecer de nós e remediar-nos? Sim, podia – diz Santo Tomás – mas não com tanta presteza e prontidão, porque enquanto Deus só conhecia as misérias; por simples notícia, e depois que padeceu conheceu-as por experiência: Sciendum quod... posse ali-quando importa! non nudam potentiam, sed promptitudinem et aptitudinem Christi ad subveniendum: et hoc quia scit per experientiam miseriam mostram, quam ut Deus ab aeterno scivit per simplicem notitiam. – Necessário foi logo na Mãe — assim como no Filho - que a experiência das dores e amarguras próprias lhe acrescentasse a compaixão das alheias, e excitasse e estimulasse nas suas a prontidão de remediar as nossas.

 A quinta etimologia, e também a última, como a maior e mais excelente de todas, é singularmente do grande doutor da Igreja Santo Ambrósio, qual diz que o nome de Maria significa Deus ex genere meo: Deus da minha geração. - Speciale Maria Domini hoc nomen invenit quod significar Deus e; genere meo. - Não declarou o santo a origem de tal nome, mas depois lhe descobriram as raízes outros autores, na derivação de duas palavras hebraicas. E que significação pode haver, nem mais alta nem tão imensa? S. Paulo em Ate nas, ensinando aos areopagitas a grande dignidade do homem e parentesco que tem com a divindade, diz que somos geração de Deus; e para isso lhes alegou como coisa conhecida até dos mais sábios gentios, o verso de Arato, poeta da sua mesma nação: Ipsius enim et genus sumus (“Porque dele também somos linhagem” - At. 17, 28). - De sorte que os homens somos geração de Deus, e Deus é geração de Maria: os homens geração de Deus, porque Deus nos deu o ser; Deus geração de Maria, porque Maria deu o ser a Deus. E isto é o que significa o nome de Maria: Deus ex genere meo. - Vede se tive razão de lhe chamar imenso, como agora lhe chamo sobre-imenso. E por quê? Porque, sendo Deus imenso e infinito, uma parte de que se compõe o nome de Maria é todo Deus. Quis Deus acrescentar o nome de Abrão, e a significação dele, que era grande: e que fez? Tirou uma letra do seu nome, a acrescentou-a ao nome de Abrão. Isso quer dizer: Nec ultra vocabitur nomen tuum Abram sed appellaberis Abraham (“Daqui por diante não te chamarás mais Abrão, mas chamar-te-ás Abraão” - Gên. 17, 5). - Este foi o acrescentamento de nome; e o do significado foi tal que, declarando-o o mesmo Deus, disse: Faciam te crescere vehementissime (Gên. 17, 6): Far-te-ei crescer veementissimamente. - Invente a gramática outros termos maiores de se explicar, por que os superlativos já são curtos. Se os aumentos que uma só letra do nome de Deus causou no nome de Abraão foram veementíssimos aqueles com que todo o nome de Deus entrou no nome de Maria, e o encheu Maria, Deus ex genero meo - quais seriam? Reserve-o para si o mesmo Deus, que só ele o pode compreender.

27 de out de 2015

Quem é Autômato?

Autômato é uma figura, que imita os movimentos dos seres animados; máquina que parece mover-se de si mesmo, por efeito de suas molas, pesos, rodas, com os relógios; pessoa inconsciente, cujos atos obedecem à vontade alheia ou não são precedidos de reflexão; a gente estúpida, que fala, opina e executa, como uma máquina, sem vontade própria. Tal palavra vem do grego autômatos: espontâneo, voluntário, que obra por si; composto de autos: si mesmo, e mao: desejar, querer.

Exemplos de uso:
Da mesma sorte que os autômatos, obedecendo à pressão da mola que os põe em movimento, executam evoluções regulares, o corpo dos homens de têmpera vigorosa tem a propriedade de reter em si os impulsos da vontade e dirigir-se por essa norma, ainda quando a alma entra em repouso e abandona por assim dizer o invólucro de sua materialidade” (José de Alencar: “O Sertanejo”). / “Nos primeiros dias de julho, em lugar dos vinte malfeitores que dantes trazia mais ou menos ligados consigo, contava o Tunda-Cumbe número superior a duzentos; e por tal forma lhes havia imposto a sua autoridade, que a seu grado os dirigia e movia tão bem como se foram puros autômatos” (Franklin Távora: “O Matuto”). / — De estatura menos que meã, alcachinada e torpe, balouçava à frente o tronco em perros movimentos de autômato, atirando ao acaso as pernas, desarticulando em bruscos sacões o arcabouço descarnado” (Abel Botelho: “Amanhã”).


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É isso!

A origem do Autóctone

Autóctone (latim autochthones) vem do grego autos: si mesmo, e chthon: terra, país, ou seja: da mesma terra, do mesmo país, indígena. Autóctonos era como chamavam os gregos aos primeiros habitantes de um país, para diferenciá-los dos povos que se estabeleciam em outra parte. Uma “língua autóctone” é a primeira de um país, aquela falada por seus primeiros habitantes.

Exemplos de uso: 
A face primordial da questão ficou assim aclarada. Que resultem do "homem da Lagoa Santa" cruzado com o pré-colombiano dos sambaquis; ou se derivem, altamente modificados por ulteriores cruzamentos e pelo meio, de alguma raça invasora do Norte, de que se supõe oriundos os tupis tão numerosos na época do descobrimento — os nossos silvícolas, com seus frisantes caracteres antropológicos, podem ser considerados tipos evanescentes de velhas raças autóctones da nossa terra” (Euclides da Cunha: “Os Sertões”). / “A lei   pombalina da abolição da servidão dos autóctones melhorou as condições de vida destes, apesar das muitas violências que ainda se praticaram no decurso da segunda metade do século contra os desprotegidos e ingênuos habitantes das antigas aldeias do real padroado” (Visconde de Taunay: “História da Cidade de São Paulo”). / “Aceitando a aparição do homem sobre a Terra na época terciária, no período do eoceno, segundo os mais ousados antropologistas, nada se sabe de positivo sobre os habitantes pré-históricos da Península Ibérica. Têm-se de admitir ali populações autóctones, que viriam prolongando-se pelos períodos geológicos seguintes – mioceno, plioceno, pós-plioceno” (Sílvio Romero: “História da Literatura Brasileira”).

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O significado de Aqueronte

Aqueronte é um termo utilizado na mitologia para designar o inferno.  Vem do grego acheos: dor, e rhoos: rio, do verbo rheo: eu corro, eu fluo, significando: rio das dores ou rio do infortúnio.

No clássico “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri, no Canto III, vemos que é o local onde vive Caronte (Caron), que se incumbe de conduzir almas perdidas até lá: “Chegam os Poetas à porta do Inferno, na qual estão escritas terríveis palavras. Entram e no vestíbulo encontram as almas dos ignavos, que não foram fiéis a Deus, nem rebeldes. Seguindo o caminho, chegam ao Aqueronte, onde está o barqueiro infernal, Caron, que passa as almas dos danados à outra margem, para o suplício. Treme a terra, lampeja uma luz e Dante cai sem sentidos.”

Exemplos de uso:

"Do mar temos corrido e navegado
Toda a parte do Antártico e Calisto,
Toda a costa Africana rodeado,
Diversos céus e terras temos visto;
Dum Rei potente somos, tão amado,
Tão querido de todos, e benquisto,
Que não no largo mar, com leda fronte,
Mas no lago entraremos de Aqueronte” (Camões: “Os Lusíadas”).

No mar de fogo lúgubres deságuam:
Ódios mortais ali o Estígio rola;
O atro Aqueronte de pesar se impregna;
Em seu álveo choroso ouve o Cocito
Alto clamor, e dele assim se chama;
O Flegetonte em si feroz impele
Raiva enrolada em borbotões de flamas” (John Milton: “O Paraíso Perdido”, tradução)

De minha rouca voz, confusa e lenta,
Qual torvão espantoso e violento
De repentina e hórrida tormenta;
Ao Rio de Aqueronte turbulento,
Que em sulfúreas burbulhas arrebenta,
Passe com tal vigor, que imprima espanto
Em Minos riguroso e Radamanto” (Bento Teixeira: “Prosopopéia”).


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O que é um Apólogo

Apólogo, do latim apologus, do grego apologos, é formado de apo, que expressa fim ou intenção, e logos: discurso, palavra. O apólogo é uma alegoria moral ou instrutiva, em que figuram, falando, animais ou coisas inanimadas.

A nossa Literatura apresenta em exemplo clássico. Trata-se do conto “Apólogo”, do nosso genial Machado de Assis, que transcrevemos a seguir, na íntegra:

Um Apólogo, de Machado de Assis:

Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:

— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo?

— Deixe-me, senhora.

— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.

— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.

— Mas você é orgulhosa.

— Decerto que sou.

— Mas por quê?

— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?

— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu e muito eu?

— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...

— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás obedecendo ao que eu faço e mando...

— Também os batedores vão adiante do imperador.

— Você é imperador?

— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...

Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:

— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima...

A linha não respondia; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte. Continuou ainda nessa e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.

Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava de um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha para mofar da agulha, perguntou-lhe:

— Ora, agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.

Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:

— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.

Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:


— Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!

O significado de Anômalo

Anômalo, do latim anomalus, é formado de a (prefixo grego de negação) e homalos, que significa: igual, parecido, semelhante, ou seja: não-semelhante, não-igual. Há, porém, quem o faz derivar de a (sem) e nomos: lei, regra, isto é: sem regra, não regular, irregular. Os dicionários apresentam, entre outros, os seguintes sentidos para este termo: oposto à ordem natural, anormal, aberrante, desigual, excepcional. Da mesma origem resulta anomalia: anormalidade, desigualdade, irregularidade, monstruosidade, exceção à regra, aberração etc.

Exemplos de uso:
As leis naturais pelo próprio jogo parecem extinguir, a pouco e pouco, o produto anômalo que as viola, afogando-o nas próprias fontes geradoras” (Euclides da Cunha: “Os Sertões”). / “No tempo da conciliação, a política imperial, aliás com intenções louváveis, longe de promover a restauração dos antigos ou criação de novos partidos até certo ponto concorreu para agravar esse estado anômalo, com a conhecida repugnância de usar da prerrogativa de dissolver a câmara” (José de Alencar: “Escritos Políticos”). / “O professor estudou no gabinete; consultou as obras dos mestres, coligiu observações alheias, e arranjou um sistema sobre o que não sofre regras: sobre a paixão cuja essência é o imprevisto, o anômalo, o indefinível” (José de Alencar: “A Pata da Gazela”).

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20 de out de 2015

Quem é o Anacoreta?

Trata-se de um termo latim anachoreta, do grego anachoreo: eu me retiro, composto do prefixo ana: para trás, para dentro, e choreo: eu vou. Anacoreta é o solitário, emitirão, que vive  afastado das relações sociais e que se entregou à virtude e à penitência.

Exemplos de uso: 
... E surgia na Bahia o anacoreta sombrio, cabelos crescidos até aos ombros, barba inculta e longa; face escaveirada; olhar fulgurante; monstruoso, dentro de um hábito azul de brim americano; abordoado ao clássico bastão em que se apóia o passo tardo dos peregrinos...” (Euclides da Cunha: “Os Sertões”). / “Ainda que sem fé a princípio, e sem esperança alguma de resultado - e talvez por isso mesmo - entregou-se como outrora às práticas do mais austero ascetismo, e na solidão de sua cela deu-se à vida de penitência e contemplação com uma exaltação e fervor dignos dos antigos anacoretas dos desertos da Calcida, da Nitria e da Tebaida” (Bernardo Guimarães: “O Seminarista”). / “Mandou-lhe o mestre abrir a boca, na qual havia três dentes, um à frente, que me parecia uma sentinela da saúde, para não deixar ninguém chegar ali sem primeiro fazer quarentena com receio de peste. Outro num lado, que me parecia um anacoreta pelo solitário e amarelo; e outro do outro lado, que me pareceu destes bonecos da China, que em se lhe mexendo ficam a dar com a cabeça por algum espaço” (Antônio Manuel Policarpo da Silva: “O Piolho Viajante”).


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O que é Almíscar

Almíscar é uma substância aromática que se extrai de um pequeno quadrúpede por nome almiscareiro (capreolus moschi ou moschiferus), a qual utilizada como fixativo para perfumes. Diz-se em latim moschum, mosschus; em grego: moschos; em árabe: mosch ou musch (al-musch), da qual procede a castelhana almizcle, a catalã almesc e a portuguesa almíscar. Dessa mesma origem temos: almiscarado (muito perfumado), almiscarar (perfumar com almíscar), almiscareira (planta geraniácea, de aroma semelhante ao do almíscar) e almiscareiro (o animal asiático, da ordem dos ruminantes, que tem sob o ventre uma bolsa natural, donde se extrai a substância denominada almíscar).

Exemplos de uso:
“Quanto ao âmbar, que devia ser cinzento, não duvidava das suas virtudes; mas tinha ele inventado umas superiores pastilhas de almíscar para uso de três paxás de duas caudas, seus amigos muito particulares” (Camilo Castelo Branco: “A caveira mártir”). / “Conduzindo a vela e deixando tudo às escuras, passava a criada alemã, gorda, corada, rochochuda, bem junto ao grande leito do Elesbão, feito no Lopes, deixando após si um perfume de almíscar irritante” (José Simões Lopes: “A Mandinga”). / “Quando recolhíamos ao quarto, alumiados pelo Gonçalves, passou por nós, bruscamente, no corredor, uma senhora, grande e branca, com um rumor forte de sedas claras, espalhando um aroma de almíscar (Eça de Queirós: “A Relíquia”). / “Ao cheiro de terra pisada, de cachaça, de sarro de pito, sobrelevava dominante um cheiro humano áspero, aliáceo, um odor almiscarado forte, uma catinga africana, indefinível, que doía ao olfato, que cortava os nervos, que entontecia o cérebro, sufocante, insuportável” (Júlio Ribeiro: “A carne”).



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6 de out de 2015

Para além do Alentejo

A palavra Alentejo é composta de Alende e Tejo (Tajo), como significando “além do Tejo” (rio), “na outra parte” (do Tejo). Trata-se de uma região localizada em Portugal, compreendendo os distritos de Évora e Beja, Portalegre e partes dos distritos de  Setúbal e Santarém.

Exemplos de uso:
No Alentejo, pela Estremadura, através das duas Beiras, densas sebes ondulando pôr e vale, muros altos de boa pedra, ribeiras, estradas, delimitavam os campos desta velha família agrícola que já entulhava o grão e plantava cepa em tempos de El-Rei d.Dinis” (Eça de Qieirós: “A Cidade e as Serras”).  / “Falava-se nessa noite do Alentejo, de Évora e das suas riquezas, da capela dos ossos, quando o Conselheiro entrou com o paletó no braço” (Eça de Queirós: “O Primo Basílio”). / “O Titó lançou o vozeirão, desdenhando o Alentejo como uma película de terra de má qualidade, que, fora umas léguas de campos em torno de Beja e de Serpa, por um grão só dava dois, e, apenas esgaravatada, logo mostrava o granito...” (Eça de Queirós: “A Ilustre Casa de Ramires”).


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A origem de Alemanha

Segundo D. Pedro Felipe Monlau, em seu “Diccionario Etimologico", a palavra Alemanha origina-se do teuton  al, ale: todos, e man: homem, homens, isto é: reunião, irmandade, liga (de todos os homens ou de vários povos). Quanto ao termo Germânia, supõe-se ser uma corruptela do próprio termo Alemanha, que vale como: Al-hermania, Al-germania. Em alemão diz-se Deutschland. A Bundesrepublik Deutschland,  ou seja, a República Federal da Alemanha, é um país localizado na Europa central,  com um território medido em 357.021 quilômetros quadrados.

Exemplo de uso:
Era também intoleravelmente vaidoso da sua pátria. Sem cessar, erguendo o bico, sublimava a Alemanha, mãe espiritual dos povos; depois ameaçava-me com a irresistibilidade das suas armas. A onisciência da Alemanha! A onipotência da Alemanha! Ela imperava, vasto acampamento entrincheirado de in-fólios, onde ronda e fala do alto a Metafísica armada! Eu, brioso, não gostava destas jactâncias. Assim, quando no Hotel das Pirâmides nos apresentaram um livro, para nele registrarmos nossos nomes e nossas terras, o meu douto amigo traçou o seu Topsius, ajuntando por baixo, altivamente, em letras tesas e disciplinadas como galuchos: - ‘DA IMPERIAL ALEMANHA’" (Eça de Queirós: “A Relíquia”).


É isso!

A origem de África

Dizem alguns etimologistas que tal palavra vem do grego fhrike ou frike, precedido de a (ideia de privação),  significando: sem frio, referindo-se a um lugar de muito calor. Outros, entretanto, afirmam ser oriundo do latim apricum, que quer dizer: exposto ao sol, resguardado do frio etc.
África é o terceiro continente mais extenso da Terra, com cerca de 30 milhões de quilômetros quadrados.
Na língua portuguesa usa-se tal palavra, também, para designar proeza ou façanha,  como na expressão: “Realizar uma áfrica”.

Exemplos de uso:
As nossas donas ainda se não esqueceram de sentir emoção ao aspecto de um rosto queimado pelo Sol da África...” (Gonçalves Dias: “Leonor de Mendonça”). / “O mar estava tranquilo, e o ar puro e diáfano. As costas de África fronteiras, lá na extremidade do horizonte, pareciam uma orla escura bordada no manto azul do firmamento” (Alexandre Herculano: “Eurico, o Presbítero”). / “Todavia, bem que pudesse de um pulo saltar vinte ribeiras como aquela, foi-se direito à ponte; porque não era animal que fizesse áfricas escusadas” (Alexandre Herculano: “Lendas e Narrativas”).



É isso!

O que é Aforismo

Aforismo, do grego aphorismos, pelo latim aphorismus, significa separação, definição, formado de aphorizo: separar, definir, derivado de oros: limite. Diz-se de uma sentença breve, contendo uma regra ou um princípio de grande alcance. Do mesmo radical oros formam-se as palavras: aoristo (tempo da conjugação verbal grega) e horizonte (limitador, círculo máximo da esfera que separa ou limita a parte visível da que está abaixo ou invisível).

Exemplos de uso:
Mais tarde ele explicara a Raul por que assim procedera, começando por lhe citar um aforismo latino: ‘Cancri nunquam recte ingrediuntur’" (Lima Barreto: “Marginália”). / “Homens de guerra, sem lares, afeitos à vida solta dos acampamentos, ou degredados e aventureiros corrompidos, norteava-os a todos como um aforismo o ultra equinotialem non peccavi, na frase de Barleus” (Euclides da Cunha: “Os Sertões”). / “...outros conheciam as Sentenças da moral gnômica, Singvan, os aforismos ou ditados, que exercem justa autoridade nas resoluções da vida, porque condensam em breves frases, ás vezes num só verso, a experiência de séculos” (Teófilo Braga: “Viriato”).

É isso!

O que é Advérbio

Advérbio, do latim, adverbium, é composto de ad e verbum, ad-verbum, significando: colado, arrimado, junto (ao verbo). Gramaticalmente, diz-se  do termo invariável que expressa uma circunstância do verbo ou a intensidade da qualidade dos adjetivos ou reforça outro advérbio e, em alguns casos, altera substantivos. Exemplos: Talvez ela volte / A sobremesa era muito gostosa / Ele corria apressadamente / A cantora estava meio nervosa.

Exemplos de uso:
– Espantosamente, loucamente... Qual! Não há advérbios...” (Eça de Queiróz: “A Cidade e as Serras”). / “Felizmente — ah! um felizmente neste último capítulo de um caipora, é, na verdade, uma anomalia; mas vão lendo, e verão que o advérbio pertence ao estilo, não à vida; é um modo de transição e nada mais” (Machado de Assis: “Histórias sem data”). “Eu disse triplicemente, e para mostrar os fundamentos da aplicação do advérbio basta-me declinar os nomes dos florescentes lojistas franceses que celebrizaram essa casa” (Joaquim Manuel de Macedo: “Memórias da Rua do Ouvidor”).


É isso!

A origem e o significado de Adjetivo

Segundo alguns o termo adjetivo, do latim adjectivum nomen, vem de ad e juxta: junto a; outros afirmam originar-se de ad e jungere: juntado a; há os que dizem ser oriundo de ad e jaceo, es, jacere: estar deitado junto a; e, por último, há aqueles que o faz originar de ad e jacio, is, jacere: jogar, lançar, arremessar. Na gramática diz-se da palavra que  se ajunta a um substantivo para descrever-lhe uma ou mais qualidades. Por exemplo: homem bom, mulher bonita, menino inteligente, garota travessa, chá quente etc.

Exemplos de uso:
Nas duas ou três moléstias que o pequeno teve, a aflição de D. Carmo foi enorme. Uso o próprio adjetivo que ouvi ao Campos, conquanto me pareça enfático, e eu não amo a ênfase” (Machado de Assis: “Memorial de Aires”). / “E as virtudes do doutor Godinho voltavam, em passo de procissão, solenes e sublimadas, arrastando caudas de adjetivos nobres” (Eça de Qieirós: “O Crime do Padre Amaro”).  / “Se o leitor ainda se lembra do capítulo XXIII, observará que é agora a segunda vez que eu comparo a vida a um enxurro; mas também há de reparar que desta vez acrescento-lhe um adjetivo — perpétuo” (Machado de Assis: “Memórias Póstumas de Brás Cubas”).

É isso!

Praticar um Ato

Ato vem do latim actus, de agere: obrar, praticar, estar em ação, produzir efeitos  ou resultados, conduzir. Desta mesma matriz latina (agein, agere), originam-se as palavras: ação, atitude, atividade, ativo, ator, atriz, atuação, atual, atualidade, atuante etc. No âmbito teatral, refere-se à divisão externa da peça, quando se interrompe a apresentação ou quando “cai o pano”.

Exemplos de uso:
O primeiro ato dessa série de atos foi um movimento de conservação: Humanitas tinha fome”. / “Contei-te um ato de desrespeito, e disse que era melhor cortar as relações, — aos poucos ou de uma vez”. / “No cemitério, não se contentou Rubião com deitar a pá de terra, ato em que foi primeiro, por solicitação de todos” (Machado de Assis: “Quincas Borba”).


É isso!

A origem dos Aborígenes

Forma-se tal palavra do prefixo ab, que equivale a sem, e origo, originis, significando: sem origem, sem outra origem que a primeira: quase absque alia quam prima origine nati. Os aborígenes são os primeiros habitantes, os naturais de um determinado país, em oposição aos colonizadores e aos outros povos que vieram de outra parte e que ali se estabeleceram.  Os aborígenes, na visão Ocidental, seria o equivalente ao que os antigos gregos denominavam de autóctonos.

Exemplos de uso:
Os índios arribaram a canoa, toda de encontro à margem direita do rio; o europeu e o africano desembarcaram; e os quatro aborígenes, metendo-se na água, vararam a canoa numa espécie de arealzito que mais para um lado se fazia, e tomando-a às costas, deitaram a caminhar ribeira acima, como se levassem umas andas”  (Almeida Garret: “Helena”). / “Em geral, aquela juventude esperançosa, eleita por Miranda e outros sertões lusitanos, não sabia topograficamente em que parte demoravam os povos seus comitentes, nem entendia que os aborígenes das serranias tivessem mais necessidades que fazerem-se representar, obrigados pelo regímen da constituição” (Camilo Castelo Branco: “A Queda de um Anjo”).

É isso!

30 de set de 2015

O “Ablativo” e a explicação de Machado de Assis

Deriva tal termo do latim ablativo, de ablativus, composto de ab e lativus, formado de latus (particípio passado de fero), que significa: levado, removido, transportado. Este caso de declinação é exclusivamente próprio do latim ablativus proprius est Romanorum.  Indica, portanto, circunstâncias de afastamento ou procedência. Em latim designa também causa, instrumento, modo, tempo, lugar etc.

O genial Machado de Assis dedicou uma de suas deliciosas crônicas sobre o assunto. Vejamos:

CAPÍTULO V - DO ABLATIVO

O modo com que alguma coisa se faz põe-se: Só com empenhos se obtêm empregos. Com espetáculos no Teatro Lírico é que o Ginásio há de levantar cabeça. Com esperanças no futuro é que muita gente se mete em especulações.

A causa por que alguma coisa se faz põe-se em ablativo. Ex.: O Vasques faz benefício porque não tem dinheiro. Há vereadores que foram eleitos por prometerem muita coisa. A imundícia em que está a cidade do Rio de Janeiro é devida a... (adivinhem).

O instrumento com que alguma coisa se faz, põe-se em ablativo. Ex.: O dinheiro. O amor. O descaro.

O tempo em que alguma coisa sucede, põe-se em ablativo. Ex.: O muro do Passeio Público começou a ser feito há mais de um século, e ainda não está pronto. O Teatro Lírico foi construído por três anos, em 1852, e ainda está em pé, aformoseando o campo. Desde que o Brasil é Brasil fala-se em desmoronar a montanha do Castelo. A Semana ILUSTRADA já completou dois anos de existência e há de durar muitos séculos.

O espaço de tempo, que alguma coisa dura, põe-se em ablativo. Ex.: A lama nas ruas do Rio de Janeiro dura até secar pelos raios do sol. A paciência dos Fluminenses é eterna a respeito da fiscalização municipal. O reinado dos ratoneiros dura todos os dias desde as 10 horas da noite até às 5 da madrugada.

A coisa em que alguém excede a outro, põe-se em ablativo. Ex. Um fiscal excede a uma preguiça em cuidados municipais. Os ratoneiros excedem à polícia em olho vivo. Os bailes do Oriente excedem a todos em pancadaria de zabumbas e de... pratos.

O preço por que alguma coisa se compra, ou vende, põe-se em ablativo. Ex.: Quanto custaram as obras do Passeio Público? Por quantos contos de réis se fez o grande depósito de água em Catumbi?! Quem comprará certas firmas que há na praça do Rio de Janeiro?

O princípio ou parte donde alguma ação procede, põe-se em ablativo. Ex.: A porcaria em que está a cidade de S. Sebastião procede da incúria de muita gente. A febre amarela e a colerina procedem do sono dos eleitos do povo. A falta de dinheiro, que todos sentem, procede dos mil e tantos regulamentos e decretos do tesouro.

A matéria de que alguma coisa se faz põe-se em ablativo. Ex.: De qualquer homem forma-se um preceptor de meninos das aulas da Correição. De qualquer imundícia faz-se aterro do campo de Santa Ana. De qualquer cego de pau e cãozinho faz-se um pedestre para apanhar os rapinadores de galinhas de gamelas de roupa.

O lugar onde alguém está, ou onde alguma coisa sucede, põe-se em ablativo. Ex.: Os Fluminenses estão em um depósito de pestes. A câmara municipal está em um céu de delícias. Os burros e os gatos morrem pelas ruas, e aí ficam dias inteiros. O centro do largo do Rocio é atravessado por quanto carro há, quando havia ordens em contrário.

O lugar donde alguém sai, ou vem, põe-se em ablativo. Ex.: Os tigres saem de todas as portas e a todas as horas. A descrença brota em todos os corações. A fome geral vem do pouco caso que se faz do povo, que só é considerado em vésperas de eleições.

O lugar por onde alguém vai, ou passa, põe-se em ablativo. Ex.: Pelo campo de Santa Ana ninguém pode passar. (Exceção da regra). A rua do Cattete está intransitável. (Não há mais exemplos para esta regra, porque no Rio de Janeiro por poucos lugares se pode andar e passar sem o lenço no nariz). A distância de um lugar a outro põe-se em ablativo. Ex.: Um burro e um carroceiro. O povo e os seus representantes. O começo destas preleções e o seu

PASSEIO PÚBLICO


28 DE SETEMBRO 1862.