23 de nov de 2016

A etimologia da palavra “Emboaba”

A etimologia da palavra “Emboaba”
Procediam os portugueses inversamente, abreviando, segundo o gênio do seu idioma, as palavras longas dos índios. Temos exemplos nos nomes das plantas, dos animais e dos lugares, quase os únicos que do vocabulário indígena passaram para o brasileiro. Aqui damos um exemplo:

De bacobá (kir) ou pa cobá (guaro) fizeram os portugueses pacoba ou pacova (banana).
De porog, cuia ou cabaço vazio, fizeram porongo ou vurungo.
De irará (eira: mel, yard: colher) fizeram irara (o papa mel).
De guabirá, guabiró fizeram guabiroba, guavirova.
De pag fizeram paca.
De mandiog fizeram mandioca.
Goyó-covo (o rio Iguaçu), Goyó-en (o Uruguai), Guayra (o celebre salto do Paraná, Urubupungá (cachoeira notável do mesmo rio) Came (nação), Paraná, Paranaguá se deviam escrever Goyó-coro, Goyó-en, Guayrá, Urubupungá (e o sr. Cândido Mendes escreve assim no seu Atlas, e também o sr. Pompeu na sua Geographia), Camé, Paráná, Paránaguá. Entretanto no Paraná pronuncia-se Goyó-covo, Goyó-en, Gudyra, Urubúpúngá, Cam.
Não é pois fora do natural que de abomboaé fizessem os portugueses abambode, abamboá (cabelo diferente).
De abamboá para mbamboá é facílima a passagem, atendendo à propriedade do b medial para atrair o m. Esta regra, mui conhecida nas línguas americanas e africanas (assim como a do d para atrair o n), corresponde à análoga das línguas neolatinas, em que o m tem a propriedade de atrair o b, e o n o d. E a perda do a inicial é outro fato geralmente conhecido.
Não há pois dificuldade para converter abamboá em mbamboá.
Mas, pela mesma razão que do guarani guabirá, guabiró fizeram os portugueses guabiraba, guabiroba, fizeram de mbamboá, mbamboaba, mbamboava.
Uma vez nacionalizada a palavra, decorre naturalmente o boava, como hoje se diz em São Paulo e no Paraná.
O som nasal de mb, nd, ng é de todas as línguas, é da fonética geral do homem, e não somente das línguas americanas, como se persuadiu o nosso sábio indianólogo Sr. Dr. Batista Caetano. Desde muito haviam os linguistas reparado que nas línguas dravidianas, por exemplo, palavra alguma começava por explosiva fraca, g, d, b; e quanto às línguas africanas, mais ou menos conhecidas no Brasil, lembraremos que no bunda ou angolano e no congo são tão comuns como no guarani e no tupi os sons nasais de mb, ad, ng. Chamaremos a memória do leitor para as palavras ngola (nação), nbonde (reino), ngana (senhor), ndendê (palmeira), mbunda (nação), mbdca (nação), marimbondo (inceto), ngunga (sino), macamba (gente do mesmo bando), mumbica (ruim), mandinga (remédio), samba (adoração a Deus), muxinga (chicote), canga (emparelhar, jungir dois a dois), tanga (saiote), cabungo (urinol), mucamba (criada), pango (uma erva que se pita como o tabaco), banzé (súcia), zungu (barulho), candonga (mentira), cacunda (costas), candombe (dança), jongo (dança), quibando (peneira), mulambo (farrapos), catinga (mau cheiro), munjolo (máquina de pisar grãos), marimbau ou mbirimbau (instrumento músico), fandango (dança), bumbo (tambor), quingombó (erva comestível), berinjela (idem), cumbuca (cuia), maganga (chefe, principal), macazamba (torto, feio) e infinitas outras que ouvimos tantas vezes e vemos em Cannecattim.
Entretanto as línguas neolatinas não admitem as nasais mb, nd, ng, sem que sejam precedidas de vogal. E daí vem que daquelas palavras africanas as que ficaram no brasileiro ou perderam a primeira consoante ou tomaram vogal inicial: mbirimbau ficou berimbau, ou converteu-se em marimbau; ngana passou a angana; Ngola a Angola ; mbaca perdeu o m inicial e ficou baca; mbunda ficou ambunda e também bunda; nbonde passou a anbonde, e depois a bonde.
Finalmente a troca do b pelo v, e vice-versa, é fato constante nos portugueses; e o venerável Anchieta, exemplificando a mudança que fazem os galegos do b para o v, aponta a palavra abá: “ut pro abá dizendo avá”.
Daí ambouba, mboaba, mboava, boava.
Foi esta última forma, boava que ficou no Paraná e interior de São Paulo, como alcunha dada não só aos portugueses, mas ainda aos filhos da terra que, nos traços do rosto, na cor, no acento carregado da palavra, na quadratura figura, no gesto bruto e pesado, se parecem com os incultos filhos de fora. “É um boava” dizem lá como nós aqui: “É um galego”.
Aforou-se o vocábulo como próprio e exclusivo do dialeto brasileiro. No princípio abambaaéabá, amamboaé, mambode, ambode, emboava, boava, uma delas era a voz com que o gentio do Brasil denotava a gente estranha que, pela vez primeira, pisava as suas praias, invadia os seus campos, rasgava os rios, embrenhava-se pelas florestas, devassava-lhe os segredos do lar. Emboabas eram os paulistas, os mineiros, os goianos, os cuiabanos, os portugueses de qualquer parte que surgissem.
Do Oiapoque ao Prata, do Oceano ao Paraguai há entre as diversas tribos uma palavra para designar o inimigo, o invasor, a gente nova, o estranho, o filho de fora. Na costa, em geral, entre os tupis o estrangeiro é o tapuia (aquele que não é tupi), isto é, o selvagem, contraposto ao índio civilizado, domesticado, índio manso, índio tupi (tanto é certo que as ideias de paz e de ordem são, no coração dos homens e dos povos, correlatas de civilização!)
No Maranhão chamam-se os Caraús de cupés, os brancos, os que não são bronzeados como eles, os diferentes, os outros, os estranhos.
Em Goiás apelidam os Chambioás aos cristãos de turís.
Nas Missões os brancos são caraíbas; e ainda hoje no Paraguai o índio se orgulha chamando-se de abá (o homem por excelência), em contraposição ao caray (o estrangeiro), que ninguém sabe donde vem, gente à toa.
Entre os bugres de Guarapuava, os portugueses, sinônimo de estrangeiros, são cuprís, isto é, os brancos, quase os cupés dos Caraús, e um pouco dos turís dos Chambioás.
Os Caiuás, dos aldeamentos à margem do Paranapanema, no Paraná, chamam os brancos de caraíbas, que cor- respondem aos caraíbas dos guaranis paraguaios.
Note-se que caraíba quer dizer astucioso, manhoso, e se aplicava especialmente ao feiticeiro, que tinha partes com o diabo. Y assi Io aplicaron a los Españoles, e muy impropriamente al nombre cristiano, y a cosas benditas, y assi no usamos del en estos sentidos — diz Montoya, queixoso de tanta irreverência; mas sem razão, que os pobres dos selvagens a tinham às carradas.
Os franceses são tapuy-tingas, tapuias brancos, tapuias outros, inimigos de fora da terra, descendentes de outra raça que não a americana.
Nos sertões do Mucuri os brancos são os chretonhe, kretonhe, cristãos, como os portugueses se apelidavam, aparentando terem vindo à América com o pio fim de dilatar a fé de Cristo.
Ainda hoje os Caiuás tratam os estrangeiros de amôabá (gente estranha, homem diferente).
Era, assim, por esse tempo, emboaba voz exclusiva do índio para apelidar o português; mas depois, tomada pelos invasores a posse da terra, nacionalizados os portugueses em paulistas, mineiros, goianos, cuiabanos, baianos, maranhenses, pernambucanos, eram eles, não mais os índios, os senhores da terra, e seus filhos os naturais dela. Emboabas, não, já não o eram: o emboaba era o estrangeiro, e o estrangeiro, o não brasileiro, era o recém-chegado do Reino.
Destarte pouco a pouco foi a alcunha ficando só para os portugueses, cuja avidez dos bens do Brasil e sobranceria aos naturais dele os fazia odiados de todos os moradores, fossem índios ou brasileiros. No motim do rio das Mortes, território das Minas (1708), chamado a Guerra dos Embobas, o índio não apareceu: brigaram os emboabas (ou os portugueses) com os paulistas (ou os brasileiros).
Esse ciúme de nacionalidade perdurou até se consolidar a nossa independência política; e são conhecidos os barulhos a que deu lugar no Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco, Maranhão, Pará, em toda a parte.
O português, o pé de chumbo, o galego, o mariola, o marinheiro, o lapuz (não havia apelido ridículo que se lhe poupasse, e até lhe encurtavam o nome do país e da pátria, chamando- de portuga!) era, nada mais, nada menos, o emboaba dos tempos coloniais: primeiro, o português que vexava o índio; depois, o português que vexava o brasileiro.
Sem fazer grande cabedal do modo da formação etimológica da palavra emboaba, venha de aba-mboaé-abá, ou de amoabá, ou de amôaba, ou de amboaé-hab (particípio de aycó: ser), o essencial de assentar é a significação lexicográfica. Ora cremos ter tirado a limpo que emboaba nunca significou o calçudo, pernivestido, expressão de mofa ou desprezo; porém sim, e só, sempre o estrangeiro, o homem de fora, o inimigo oriundo de outra raça, o português, expressão de desconfiança a princípio, de ódio depois, e ódio plenamente justificado para com as feras que Portugal alijava aos montes nas praias da colônia.


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A. J. de Macedo Soares (Revista Brasileira, setembro de 1879 – Adaptação ortográfica: Iba Mendes)

A história da “rosa”

A Rainha

A história da rosa é tão longa quanto a história da própria humanidade.

Desde tempos remotos, o homem civilizado tem encontrado nela a sua mais fiel companheira e por isso mereceu dele, o cognome de "rainha das flores”, lugar hoje ocupado pela orquídea. Mas como  quem foi rei não perde a majestade, considerá-la-emos, ainda, como uma rainha entre todas as flores do mundo.

A rosa tem origem no planalto do Irã, na antiga Pérsia, e sua etimologia é repleta de simbolismo. Nos nomes "verad" (caldeu), "vard" (árabe), "varda" (armênio), "rhodson" (grego), "rosa" (latino) e "gul" (persa e turco) todos reconhecem a mesma raiz "vrdh', que quer dizer crescer. É, pois a rosa o símbolo do crescimento e da própria vida. Um símbolo que concretiza, o desejo civilizador da beleza, mostrando o progresso dos povos.

Originou-se na Média e na Pérsia o culto à rosa. É, também, naquela região que se encontrava uma das principais, senão a mais importante área de distribuição do gênero Rosa.

Depois as rosas tornaram-se conhecidas dos babilônicos, através dos médio-persas. Também os hebreus aprenderam dos babilônicos a amá-la e a cultuavam com tanto carinho que se tornou o símbolo da castidade da noiva israelita o "diadema de rosas".

Introduzindo-a na celebração de suas festas, os egípcios também cultuaram a rosa. Mais tarde a filha das montanhas da Irânia, desceu à planície grega, depois a Armênia, a Frígia, a Trácia, a Macedônia e finalmente a Hélade.

Segundo os escritos antigos, também a Síria remota teve, ligados ao da rosa, os seus dias de maior esplendor.

Entretanto foi na Itália que a cultura da rosa encontrou o mais avançado grau de perfeição.

Poetas e pintores, escritores e filósofos de todos os países, têm rendido as mais exaltadas homenagens à beleza e incomparável graça da "Rainha das Flores".

Parece-nos que, no vernáculo, pertencem ao mestre Eça de Queirós, as mais belas e eruditas páginas escritas sobre a rosa, não resistindo a trazer para aqui, algumas frases do grande escritor português tão estimado no Brasil, retiradas do livro "Notas Contemporâneas":

O culto na Grécia e na Itália punha o seu luxo na profusão das rosas. Rosas em torno às imagens e juncando as aras. Rosas coroando os Augures e pontífices. Rosas sobre o dorso e nas pontas das reses votivas. Rosas em festões, de coluna em coluna, rosando a palidez dos mármores.

Nas festas chamadas "Rosália", dedicadas a Vênus, nas calendas de maio, todas as cortesãs de Roma, envoltas em véus amarelos, numa procissão lasciva e devota, ao som lento das cítaras, iam levar à Grande Deusa, sua padroeira, as primeiras rosas do ano.

Era como a proclamação sacramental da primavera e do amor. Numa outra das lindas festas rurais da Itália, as de Déa-Dia, deusa da lavoura e dos campos, a confraria dos Freires Arvales ofertava, nos altares, pães cobertos com rosas, e depois da oblação, quando se dispersava, gritando a palavra de bom agouro "Feliciter! Feliciter!" ia atirando pelas ruas e sobre o povo, às mãos cheias, as rosas que o contato do altar tornara sagradas. Na primavera, todos os lares domésticos eram enfeitados com rosas. E não havia colono na terra pagã, que, ao primeiro bafo dos Zéfiros quentes, não pendurasse um ramo de rosas à entrada de sua cabana, ou no tronco rude do Deus dos Hortos, ou entre os cornos de Pan.

Pouco a pouco, como a filosofia vinha afirmando à alma do homem que ela é imortal, à maneira dos deuses — estas grinaldas e capelas de rosas, que se davam somente aos imortais, começaram a ser ofertadas aos homens, sobretudo às mulheres, pelo que nelas havia de divino. A rosa tornou-se em breve a flor oficial do amor. Era em forma de coroa que as rosas se depunham, no fresco alvor da madrugada, à porta da bem-amada, para lhe honrar e ornar a casa como um templo. A coroa de rosas recolhida significava da parte dela, um "sim" de doce promessa. As rosas deixadas fora desdenhosamente, a murchar ao pó e à chuva, exprimiam o amargo "não".

Tíbulo, numa das suas elegias, lança em rosto a uma insensível dama a imensa e dispendiosa quantidade de coroas que ele depusera em vão no limiar da sua morada. Esta amontoação de rosas desprezadas, apodrecendo à porta das matronas, chegou mesmo, no tempo em que se conservava nos lares romanos a tradição das Lucrécias e das Pórcias, a inquietar os edis, responsáveis pelo asseio das ruas: — e a virtude doméstica foi a desolação dos varredores urbanos, quase todos escravos asiáticos e (Ó humilhação) lusitanos! Depois com o declinar da República e dos costumes, todo o ramo de rosas depositado a uma porta.

Se a rosa estava assim associada ao cerimonial dos amores, não presidia menos profusamente à composição dos festins. O mundo antigo comia entre rosas. Coroas de rosas nas cabeças frisadas ou calvas dos convivas; cordões de rosas, a tiracolo, alegrando a túnica escura dos escravos; festões de rosas nos muros de mármore cor de rosa; rosas tapetando o chão; rosas alastrando a mesa; pétalas de rosas flutuando no vinho; chuva de rosas chovendo dos tetos dos velários, ao estridor das liras. Mesmo uma parca merenda no campo não se fazia sem luxo de rosas. O simples e honesto Horácio consente em que tudo falte na sua mesa rural, menos o aroma e brilho das rosas. “Sim, meu Dellius, canta ele, jantemos sobriamente, à sombra de um pinheiro, na relva bem verde, junto de um regato sussurrante, e que não haja senão um prato, e uma ânfora — mas braçadas de rosas".


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Adaptado de: Rossini Pinto: Vida Doméstica”, setembro de 1959.

22 de nov de 2016

O significado do nome “Curitiba”

O interessante texto a seguir, fora extraído da revista “A Divulgação”, de sua edição de abril de 1954, de autoria de Arion Dall'Igna Rodrigues, que aborda uma polêmica etimológica envolvendo a origem do nome Curitiba. Vejamos...

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Curitiba: Tupi ou Guarani?

É Curitiba nome de origem tupi ou guarani? Os autores que, até aqui, têm apresentado a etimologia do nome de nossa Capital, não o indicam, como em geral não fazem distinção entre nomes que provenham de um ou de outro desses idiomas indígenas. Assim Teodoro Sampaio em "O Tupi na Geografia Nacional"; assim (para citar um autor paranaense) Romário Martins em "Toponomástica Indígena do Paraná" (Rev. do Círculo de Estudos Bandeirantes. I, 1, set. de 1934: republicado em "Alba", set. de 1938, sob o título "Vozes Indígenas na Toponímia do Paraná").

Antes de abordar o problema, é necessário saber o que se entende por tupi e por guarani. Mesmo entre os especialistas, nem sempre é feita a conveniente distinção entre esses termos. Em se tratando de línguas, temos por mais acertado fazer uma delimitação no espaço e no tempo, a fim de bem conceituar ambos os nomes. Por tupi designamos a língua que, à época da descoberta do Brasil, era falada pelos índios tupinambás (nome genérico para os tupinambás propriamente ditos, os tamoios, os tobajaras, etc.), que ocupavam o litoral entre Cananeia e o Maranhão, e a qual ficou sendo conhecida dos portugueses como "língua geral" ou língua brasílica"; por guarani indicamos o idioma falado pelos índios guaranis carijós, etc.), que habitavam ao sul de Cananeia, estendendo-se para o oeste até o Paraguai e para o sul até o Uruguai. E distinguimos, quanto ao tempo, — tupi antigo e guarani antigo, esse tupi e esse guarani respectivamente — do tupi moderno ou nheengatu, falado ainda hoje na Amazônia (particularmente no Rio Negro) e do guarani moderno ou avanheém, usado atualmente pela população rural do Paraguai e de algumas províncias argentinas.

A diferença entre o tupi e o guarani antigos não é muito grande; era possível, mesmo, a intercompreensão dos indivíduos que falavam uma e outra língua. Se bem que se manifeste também no vocabulário e na morfologia, a diferença é principalmente fonética, isto é, de pronúncia. A s tupi corresponde h em guarani: tupi (ir), guarani ; tupi seté (corpo dele) guarani heté; a pw tupi corresponde kw em guarani; tupi pwã (dedo da mão), guarani kwã; tupi pwerab (sarar), guarani kwerá; a k tupi corresponde g guarani: tupi kutuk (ferir), guarani kutug; tupi mondok (cortar), guarani mondog, etc. Justamente por ser pequena a diferença entre as duas línguas, torna-se difícil, às vezes, saber se um nome provém de uma ou de outra, pois seria idêntico em ambas. Quando se trata de topónimos, porém, o conhecimento da área de distribuição geográfica de cada idioma remove, ao menos em parte, essa dificuldade. Sabendo-se que o Paraná esteve compreendido dentro da área guarani — e não tupi — a origem de seus nomes deve ser procurada no guarani e não no tupi (não se está considerando, é claro, o caso de nomes provenientes de línguas indígenas não pertencentes à família tupi-guarani, como o caingangue).

Para o nome Curitiba, entretanto, não só a região em que ocorre indica ser oriundo do guarani. O estudo do seu étimo confirma que é palavra proveniente dessa língua e que não pode ser interpretada como tupi. O étimo evidente de Curitiba é kurity'ba, palavra do guarani antigo que significa pinheiral, derivada que é do nome kuri, que ocorre na forma de kuriy, registrada no século XVII pelo padre Montoya, e que propriamente significa "árvore kuri", termo com que era designado o pinheiro; o segundo elemento — ty'ba — é sufixo abundancial, neste caso equivalente ao sufixo português — al. Mas, enquanto o guarani antigo possui um nome especial para o pinheiro, dá-se também que o tupi antigo não apresenta nenhuma denominação própria para essa árvore. O maior e mais antigo dicionário do tupi antigo até hoje publicado, o "Vocabulário na Língua Brasílica", de autor anônimo, registra, para traduzir o português "pinhão" e "pinheiro", respectivamente pina e pinay'ba. Esta última palavra formada de pina, evidente portuguesismo, e y'ba (árvore): árvore do pinhão. Ora, se o tupi teve de emprestar do português o nome de pinhão (pina), é óbvio que não possuía termo próprio para designar a planta, o que, aliás, é muito natural, pois a Araucária brasiliensis tem seu habitat limitado ao sul, coincidindo aproximadamente com o domínio guarani, e é desconhecida para o norte, onde se falava o tupi.

21 de nov de 2016

A origem do “brasão”

A etimologia da palavra brasão é incerta. Alguns dão-na como de origem latina; outros do inglês; há também os que afirmam derivar de blasen, palavra alemã, que significa tocar trompa. Esta opinião parece mais verossímil, porque antigamente, quando um cavaleiro se apresentava na barreira do torneio, o seu escudeiro tocava a trompa, para anunciar a sua chegada, e os arautos de armas iam reconhecer o campeão, e antes de o introduzir descreviam em altas vozes os seus brasões de armas. Maigne afirmou, ainda, que brasão é um antigo termo francês, sinônimo de escudo ou broquel, o qual é encontrado em poemas da Idade Média, de maneira que talvez por metonímia fosse empregado para designar a arte heráldica, que propriamente falando, é o estudo dos escudos ou broqueis de brasões de armas.

Concernente à história dos brasões, à medida que seu uso se espalhou, nasceu a necessidade de submetê-los a regras claramente determinadas, para impedir abusos, e a esse conjunto de regras deu-se o nome de arte heráldica ou simplesmente brasão. Chama-se pois heráldica a ciência que ensina a conhecer os brasões de armas, nomeá-los e explicar todas as suas partes, segundo seus termos. A ação de os explicar chama-se brasonar.

As armas ou brasões de armas eram emblemas concedidas ou autorizadas pelos poderes soberanos, para servirem de marcas distintivas a pessoas, famílias, cidades, corporações, países etc.    Havia três tipos dos brasões de armas: brasões de armas inteiros, partidos e parlantes. Os que não se enquadravam nas regras do brasão de armas eram considerados falsos ou de inquerito (enquete), que quer dizer — contra as regras.  Os Brasões de armas inteiros eram aqueles que pertenciam ao chefe ou filho primogênito do uma casa nobre. Os partidos pertenciam aos irmãos mais moços o aos ultimogênitos (caçulas), os quais, para assinalar seus graus ajuntavam, suprimiam ou substituíam as cores ou partes do escudo, dando origem assim ao brasão de armas de seus próprios pais, ao que se denominavam de partir, que era a ação de juntar uma cotica ao escudo. As armas parlantes são as que exprimiam todo ou em parte o nome da casa que as usava, e geralmente eram consideradas de mal gosto.

Os brasões de armas dividiam-se em sete classes, distintas e particulares. A primeira compreendia as armas de cada família nobre; a segunda, às que pertenciam às dignidades e funções eclesiásticas ou militares; a terceira eram às de “concessões”, pertencentes aos soberanos, as quais podiam ser intercaladas nas de uma família; a quarta, as de “padroados”, que eram próprias de um soberano,  estado ou de uma cidade livre; a quinta de feudos ou domínios, isto é, a de diversos estados ou terras que eram posses do soberano; a sexta (de “pretensão”) eram de origem doméstica; e, por último, a sétima eram aquelas pertencentes às comunidades, cidades, academias, corporações etc. Alguns dos antigos estudiosos do assunto acrescentaram às essas mais outras quatro, a saber: as de “aliança”, contendo costados ou divisões de escudo provenientes dos avós maternos; as de “sucessão”, das quais se serviam na falta de herdeiro de sangue; as de “substituição”, que eram aquelas de uma família  extinta, da qual se tomavam o nome e as armas; e as de “assunção”, as quais eram juntadas às divisões do escudo, em comemoração de um grande feito.


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29 de ago de 2016

O significado do nome Bismarck

Li num jornal do século passado que o nome Bismarck (Otto von Bismarck, grande estadista alemão do século XIX) viria por corrupção de bischoff (bispo) e mark (limite, fronteira), e significaria, por consequência: fronteira do bispo, isto é, circunscrição episcopal. Os antepassados do chanceler alemão foram de fato os primeiros personagens do bispado de Haiberstadt.


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A simplicidade da Letra

A letra é um símbolo muito mais simples e tratável que a imagem. Isto decorre da própria etimologia de letra. O célebre antiquário Vossius deu para o radical do termo letra uma palavra grega - litos - que é em latim exatamente simplex, exilis: coisa simples. De litos o legere romano, de onde litera é para nós letra.


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26 de ago de 2016

A origem do biscoito

A forma mais antiga de se utilizar da farinha de trigo é o biscoito. Ninguém, porém, pode afirmar em que época foi, pela primeira vez, empregada a fermentação para se fazer o pão, mas o que incontestável é que os bolos feitos com farinha e águas, sem fermentação, que é o biscoito, é muito mais antigo do que o pão. Li num periódico que no fundo das camadas dos lagos da Suíça que datam da idade neolítica, foram achados bolos feitos de farinha e água, sem fermentação. O biscoito é, portanto, a forma primitiva da utilização da farinha de trigo e tem a vantagem de se conservar muito tempo e ser de fácil fabricação. Quase todas as nações antigas usavam de biscoitos nas guerras e nas longas viagens terrestres e marítimas. Os gregos davam-lhes um nome, que equivale a "pão que vai duas vezes ao fogo", e os romanos a denominavam de panis nauticus. A palavra biscoito significa que a preparação da massa ia "duas vezes" (bis) ao fogo, e os franceses dizem biscuit: bis (duas vezes) e cocto (cozido). Atualmente o processo de fabricar biscoitos é bem diferente, pois vai ao fogo uma só vez. Sobre o assunto ironizou alguém num jornal de 1888: "Daqui a alguns séculos os etimologistas atrapalhados para aplicarem a origem da palavra biscoito, indo uma só vez ao fogo, hão de descobrir em qualquer língua Welche que bis significa um."



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É isso!

A origem do Jornal

A palavra jornal origina-se do francês journal, que por sua vez tem origem no italiano digionale (formado de diurnalis, derivado de dies, jour), que significa diário. No século XIX, aqui no Brasil, o termo foi duramente atacado pelos puristas da língua, como foi o caso de Felinto Elysio, que via a palavra como um "galicismo intolerável", sugerindo que se empregasse tão somente a palavra diário para se referir ao periódico diário. Para ele tal termo deveria ser usado apenas em referência ao que o jornaleiro ganha diariamente, o pagamento feito por dia de trabalho (diária, féria, remuneração). O pedantismo linguístico, porém, fora superado e ninguém mais questiona o uso do vocábulo para designar a publicação periódica (geralmente diária), a qual contém notícias nacionais e internacionais, editoriais, artigos, quadrinhos, classificados, anúncios etc. Também é sinônimo de: folha, gazeta e periódico.



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É isso!

A origem da Rússia

Especula-se que tal palavra referia-se na sua origem ao Rio Neman: russ, russia, ou da palavra finlandesa ruotsi, com a qual os finlandeses designavam os estrangeiros, e mais particularmente os suecos, que se estabeleciam na costa oriental do Báltico, pela embocadura do Niemen. Apenas no século IX é que o nome de russos (ou rossos) começou a figurar na história.  Foi no ano de 839 que uma embaixada de russos se apresentou em Constantinopla, e em 852, que uma flotilha russa entrou nas águas do Bósforo. O fundador da Rússia foi Rurick, chefe dos yareghs, povo estabelecido nas margens do Báltico, nas proximidades da embocadura do Niemen.



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É isso!

A origem do Senado

Do latim Senex (velho) origina-se a palavra Senado (senatus), que representa um congresso de homens de certa idade para cima (entre nós 40, 35  e agora de 29 anos), aos quais são confiados os negócios do estado da mais alta importância, levando-se em conta que só em certa idade é que o homem com sua notável  experiência e o exercício de certas habilidades, e com o fruto de suas lucubrações pode, apresentando certo grau de instrução, tomar decisões mais segura e acertadamente, não apenas porque o muito errar lhe tem ensinado a acertar, como porque certas paixões que deslumbrarão os olhos da mocidade, já neles não tem preponderância.

Na Roma antiga referia-se à assembleia dos patrícios, que constituía o Conselho supremo da nação.

O senado brasileiro é uma das duas casas legislativas que formam o Congresso Nacional, composta de representantes dos estados da federação e do Distrito Federal, eleitos pelo voto popular direto a mandatos de quatro anos, passíveis de reeleição.



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É isso”!

A origem da cariátide

A palavra cariátide é um termo utilizado na Arquitetura e se refere a coluna ou pilastra, originária da Grécia antiga, geralmente com a forma de figura feminina, para sustentar cornijas ou arquitrave (Michaelis). Segundo um documento que encontrei de 1859, o termo tem a seguinte procedência:


“Tendo os habitantes da Cária feito uma aliança com os persas contra outros gregos, estes subjugaram os primeiros e passaram os homens ao fio da espada, fazendo as mulheres suas escravas e obrigando as infelizes a conservarem seus compridos vestidos e ornatos, para simbolizar a expiação daquele crime.  Os arquitetos, na sua santa indignação contra os traidores, substituíram as colunas e pilastras por mulheres vestidas como as carítas, para transmitir à posteridade a maneira do seu cativeiro e infame traição que lhe deu causa. Tal é a origem da palavra, que se aplica desde então, tanto na escultura como na arquitetura, a todas as estátuas de mulher, todas ou parte vestidas, e que se colocam em lugar de colunas, para sara sustentar os entablamentos. ”


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É isso"!

As etimologias de Maria segundo o Padre Vieira

Em seu belíssimo “Sermão do Santíssimo Nome de Maria”, o genial Padre Antônio Vieira (um dos maiores oradores da Língua Portuguesa em todos os tempos) nos brindas com a sua sapiência e o seu vasto conhecimento da etimologia latina. Fazendo uso de expressões da língua de Roma, exalta ele as virtudes de Maria (mãe de Jesus Cristo), justificando-as pelo viés etimológico e teológico. Se não nos convence com sua Teologia, certamente persuade-nos com sua habilidade no manejo correto do nosso idioma. Vejamos...

As significações do nome de Maria: Stella Maris, Domina, Illuminatrix, Amarum mare, Deus ex genere meo.

Depois de declarado quem foi e quem só podia ser o autor do nome de Maria, que foi Deus, segue-se, como prometi, examinar a significação ou signifi­cações do mesmo nome. A língua hebreia, a caldaica, a siríaca, a arábica, a grega, a latina, todas conspiram em o derivar de diversas raízes e origens, por onde não é uma só, senão muitas as etimologias deste profundíssimo e fecundíssimo nome, e o mesmo nome, segundo a propriedade de suas significações, não um só nome, senão muitos nomes.

 A primeira etimologia, e sabida de todos, é que o nome de Maria significa Stella maris: estrela do mar. O mar é este mundo, cheio de tantos perigos, combatido de todos os ventos, exposto a tão frequentes tempestades, e em uma tão larga, temerosa e escura navegação, quem poderia chegar ao porto do céu, se não fosse guiado de lá por aquela benigníssima estrela? Quibus auxiliis possunt naves inter tot pericula pertransire usque ad littus patriae? Por que meio poderão os navegantes, entre tantos perigos, chegar às praias da pátria? – pergunta o Papa Inocêncio III – e responde que só por meio de duas coisas: nau e estrela. A nau é o lenho da Cruz, a estrela é Maria: Certe per duo, videlicet, per lignum et stellam, ide est, per lidem crucis et virtutem lucis, quam peperit nobis Maria maris stella.

A segunda significação e etimologia do nome de Maria é Domina, Senhora por antonomásia, porque do seu domínio e império nenhuma coisa se exclui: Senhora do céu e Senhora da terra, Senhora dos homens e Senhora dos Anjos, e até Senhora por modo inefável do mesmo Criador do céu e da terra, o qual lhe quis ser, e foi sujeito. Ouçamos o altíssimo pensamento de S. Bernardino, e tão verdadeiro como alto: Ille qui Filius Dei est et Virginis benedictae, volens paterno principatui quodammodo principatum aequiparare, ut sic dicam, maternum in se qui Deus erat, matri famulabatur in terra: Aquele Senhor, que é Filho de Deus e da Virgem, querendo em certo modo igualar o senhorio de sua Mãe ao senhorio de seu Pai, se sujeitou e fez súdito da mesma Mãe na terra. – E isto com tanta verdade – conclui o santo – que assim como verdadeiramente dizemos que todas as coisas obedecem a Deus, até Maria, assim é verdadeiro dizer que todas as coi­sas obedecem a Maria, até Deus: Sicut verum est divino imperio omnia famulan­tur, et Virgo, ita quoque verum est Virginis imperio omnia famulantur, et Deus.

A terceira etimologia e interpretação do nome de Maria é Illuminatrix, ou Illuminans eos, isto é, a que alumia a todos os homens. Por isso é comparada a Senhora àquela coluna de fogo que de noite alumiava todo o exército e povo de Israel no deserto, enquanto caminhavam peregrinos para a Terra de Promissão: Tolle corpus hoc solare, qui diminuta mundum: ubi dies? Tolle Mariam, quid nisi caligo involvens, et umbra mortis, et densissimae tenebrae relinquuntur? Tirai do mundo este corpo solar, esta tocha universal, que o alumia diz – S. Bernardo – e onde estará então o dia, ou quem o fará? – Do mesmo modo, se tirardes do mundo a Maria, tudo ficará às escuras, tudo trevas, tudo sombras mortais, tudo uma noite perpétua, sem que jamais amanheça. – E que muito é – diz o mesmo santo – que Maria alumie a terra e os homens, se, depois que entrou no céu, a mesma pátria dos bem-aventurados e a mesma Corte do empíreo ficou muito mais alumiada e ilustrada com os res­plendores de sua presença? Mariae praesentia totus illustratur orbis, et ipsa jam caelestis patria clarior rutilat virgineae lampadis irradiata fulgore.

A quarta interpretação, e que parece menos alegre, do docíssimo nome de Maria é Amarum mare: mar amargoso. Mas como podem caber as amarguras do mar, ou um mar inteiro de amargura, no nome daquela Senhora a quem nós saudamos e invocamos com ode doçura nossa? Já se vê que aludem estas amargu­ras às dores do pé da Cruz, das quais estava profetizado com o mesmo nome de mar: Magna est velut mare contritio tua (Grande é como o mar o teu desfalecimento” - Lam. 2, 13). – Mas, posto que as águas daquele turbulento mar foram tão amargosas para a Mãe angustiada que as padeceu, para nós, que logramos os efeitos delas, são muito doces. Porque, ainda que a miseri­córdia da Senhora foi sempre grande, as dores que então experimentou, fez a mesma misericórdia mais pronta para socorrer e remediar as nossas. Não tem menos autor esse reparo daquelas amarguras que o angélico Santo Tomás. Diz S. Paulo que Cristo quis padecer para se poder compadecer de nós: Non habemus pontifi­cem, qui non possit compati infirmitatibus nostris, tentatum per omnia (“Não temos um pontífice que não possa compadecer-se das nossas enfermidades, mas que foi tentado em todas as coisas” - Hebr. 4, 15). – Pois Cristo, ainda que não fosse possível, nem padecesse, não se podia compadecer de nós e remediar-nos? Sim, podia – diz Santo Tomás – mas não com tanta presteza e prontidão, porque enquanto Deus só conhecia as misérias; por simples notícia, e depois que padeceu conheceu-as por experiência: Sciendum quod... posse ali-quando importa! non nudam potentiam, sed promptitudinem et aptitudinem Christi ad subveniendum: et hoc quia scit per experientiam miseriam mostram, quam ut Deus ab aeterno scivit per simplicem notitiam. – Necessário foi logo na Mãe — assim como no Filho - que a experiência das dores e amarguras próprias lhe acrescentasse a compaixão das alheias, e excitasse e estimulasse nas suas a prontidão de remediar as nossas.

 A quinta etimologia, e também a última, como a maior e mais excelente de todas, é singularmente do grande doutor da Igreja Santo Ambrósio, qual diz que o nome de Maria significa Deus ex genere meo: Deus da minha geração. - Speciale Maria Domini hoc nomen invenit quod significar Deus e; genere meo. - Não declarou o santo a origem de tal nome, mas depois lhe descobriram as raízes outros autores, na derivação de duas palavras hebraicas. E que significação pode haver, nem mais alta nem tão imensa? S. Paulo em Ate nas, ensinando aos areopagitas a grande dignidade do homem e parentesco que tem com a divindade, diz que somos geração de Deus; e para isso lhes alegou como coisa conhecida até dos mais sábios gentios, o verso de Arato, poeta da sua mesma nação: Ipsius enim et genus sumus (“Porque dele também somos linhagem” - At. 17, 28). - De sorte que os homens somos geração de Deus, e Deus é geração de Maria: os homens geração de Deus, porque Deus nos deu o ser; Deus geração de Maria, porque Maria deu o ser a Deus. E isto é o que significa o nome de Maria: Deus ex genere meo. - Vede se tive razão de lhe chamar imenso, como agora lhe chamo sobre-imenso. E por quê? Porque, sendo Deus imenso e infinito, uma parte de que se compõe o nome de Maria é todo Deus. Quis Deus acrescentar o nome de Abrão, e a significação dele, que era grande: e que fez? Tirou uma letra do seu nome, a acrescentou-a ao nome de Abrão. Isso quer dizer: Nec ultra vocabitur nomen tuum Abram sed appellaberis Abraham (“Daqui por diante não te chamarás mais Abrão, mas chamar-te-ás Abraão” - Gên. 17, 5). - Este foi o acrescentamento de nome; e o do significado foi tal que, declarando-o o mesmo Deus, disse: Faciam te crescere vehementissime (Gên. 17, 6): Far-te-ei crescer veementissimamente. - Invente a gramática outros termos maiores de se explicar, por que os superlativos já são curtos. Se os aumentos que uma só letra do nome de Deus causou no nome de Abraão foram veementíssimos aqueles com que todo o nome de Deus entrou no nome de Maria, e o encheu Maria, Deus ex genero meo - quais seriam? Reserve-o para si o mesmo Deus, que só ele o pode compreender.

27 de out de 2015

Quem é Autômato?

Autômato é uma figura, que imita os movimentos dos seres animados; máquina que parece mover-se de si mesmo, por efeito de suas molas, pesos, rodas, com os relógios; pessoa inconsciente, cujos atos obedecem à vontade alheia ou não são precedidos de reflexão; a gente estúpida, que fala, opina e executa, como uma máquina, sem vontade própria. Tal palavra vem do grego autômatos: espontâneo, voluntário, que obra por si; composto de autos: si mesmo, e mao: desejar, querer.

Exemplos de uso:
Da mesma sorte que os autômatos, obedecendo à pressão da mola que os põe em movimento, executam evoluções regulares, o corpo dos homens de têmpera vigorosa tem a propriedade de reter em si os impulsos da vontade e dirigir-se por essa norma, ainda quando a alma entra em repouso e abandona por assim dizer o invólucro de sua materialidade” (José de Alencar: “O Sertanejo”). / “Nos primeiros dias de julho, em lugar dos vinte malfeitores que dantes trazia mais ou menos ligados consigo, contava o Tunda-Cumbe número superior a duzentos; e por tal forma lhes havia imposto a sua autoridade, que a seu grado os dirigia e movia tão bem como se foram puros autômatos” (Franklin Távora: “O Matuto”). / — De estatura menos que meã, alcachinada e torpe, balouçava à frente o tronco em perros movimentos de autômato, atirando ao acaso as pernas, desarticulando em bruscos sacões o arcabouço descarnado” (Abel Botelho: “Amanhã”).


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É isso!

A origem do Autóctone

Autóctone (latim autochthones) vem do grego autos: si mesmo, e chthon: terra, país, ou seja: da mesma terra, do mesmo país, indígena. Autóctonos era como chamavam os gregos aos primeiros habitantes de um país, para diferenciá-los dos povos que se estabeleciam em outra parte. Uma “língua autóctone” é a primeira de um país, aquela falada por seus primeiros habitantes.

Exemplos de uso: 
A face primordial da questão ficou assim aclarada. Que resultem do "homem da Lagoa Santa" cruzado com o pré-colombiano dos sambaquis; ou se derivem, altamente modificados por ulteriores cruzamentos e pelo meio, de alguma raça invasora do Norte, de que se supõe oriundos os tupis tão numerosos na época do descobrimento — os nossos silvícolas, com seus frisantes caracteres antropológicos, podem ser considerados tipos evanescentes de velhas raças autóctones da nossa terra” (Euclides da Cunha: “Os Sertões”). / “A lei   pombalina da abolição da servidão dos autóctones melhorou as condições de vida destes, apesar das muitas violências que ainda se praticaram no decurso da segunda metade do século contra os desprotegidos e ingênuos habitantes das antigas aldeias do real padroado” (Visconde de Taunay: “História da Cidade de São Paulo”). / “Aceitando a aparição do homem sobre a Terra na época terciária, no período do eoceno, segundo os mais ousados antropologistas, nada se sabe de positivo sobre os habitantes pré-históricos da Península Ibérica. Têm-se de admitir ali populações autóctones, que viriam prolongando-se pelos períodos geológicos seguintes – mioceno, plioceno, pós-plioceno” (Sílvio Romero: “História da Literatura Brasileira”).

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É isso!

O significado de Aqueronte

Aqueronte é um termo utilizado na mitologia para designar o inferno.  Vem do grego acheos: dor, e rhoos: rio, do verbo rheo: eu corro, eu fluo, significando: rio das dores ou rio do infortúnio.

No clássico “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri, no Canto III, vemos que é o local onde vive Caronte (Caron), que se incumbe de conduzir almas perdidas até lá: “Chegam os Poetas à porta do Inferno, na qual estão escritas terríveis palavras. Entram e no vestíbulo encontram as almas dos ignavos, que não foram fiéis a Deus, nem rebeldes. Seguindo o caminho, chegam ao Aqueronte, onde está o barqueiro infernal, Caron, que passa as almas dos danados à outra margem, para o suplício. Treme a terra, lampeja uma luz e Dante cai sem sentidos.”

Exemplos de uso:

"Do mar temos corrido e navegado
Toda a parte do Antártico e Calisto,
Toda a costa Africana rodeado,
Diversos céus e terras temos visto;
Dum Rei potente somos, tão amado,
Tão querido de todos, e benquisto,
Que não no largo mar, com leda fronte,
Mas no lago entraremos de Aqueronte” (Camões: “Os Lusíadas”).

No mar de fogo lúgubres deságuam:
Ódios mortais ali o Estígio rola;
O atro Aqueronte de pesar se impregna;
Em seu álveo choroso ouve o Cocito
Alto clamor, e dele assim se chama;
O Flegetonte em si feroz impele
Raiva enrolada em borbotões de flamas” (John Milton: “O Paraíso Perdido”, tradução)

De minha rouca voz, confusa e lenta,
Qual torvão espantoso e violento
De repentina e hórrida tormenta;
Ao Rio de Aqueronte turbulento,
Que em sulfúreas burbulhas arrebenta,
Passe com tal vigor, que imprima espanto
Em Minos riguroso e Radamanto” (Bento Teixeira: “Prosopopéia”).


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É isso!

O que é um Apólogo

Apólogo, do latim apologus, do grego apologos, é formado de apo, que expressa fim ou intenção, e logos: discurso, palavra. O apólogo é uma alegoria moral ou instrutiva, em que figuram, falando, animais ou coisas inanimadas.

A nossa Literatura apresenta em exemplo clássico. Trata-se do conto “Apólogo”, do nosso genial Machado de Assis, que transcrevemos a seguir, na íntegra:

Um Apólogo, de Machado de Assis:

Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:

— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo?

— Deixe-me, senhora.

— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.

— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.

— Mas você é orgulhosa.

— Decerto que sou.

— Mas por quê?

— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?

— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu e muito eu?

— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...

— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás obedecendo ao que eu faço e mando...

— Também os batedores vão adiante do imperador.

— Você é imperador?

— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...

Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:

— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima...

A linha não respondia; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte. Continuou ainda nessa e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.

Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava de um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha para mofar da agulha, perguntou-lhe:

— Ora, agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.

Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:

— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.

Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:


— Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!

O significado de Anômalo

Anômalo, do latim anomalus, é formado de a (prefixo grego de negação) e homalos, que significa: igual, parecido, semelhante, ou seja: não-semelhante, não-igual. Há, porém, quem o faz derivar de a (sem) e nomos: lei, regra, isto é: sem regra, não regular, irregular. Os dicionários apresentam, entre outros, os seguintes sentidos para este termo: oposto à ordem natural, anormal, aberrante, desigual, excepcional. Da mesma origem resulta anomalia: anormalidade, desigualdade, irregularidade, monstruosidade, exceção à regra, aberração etc.

Exemplos de uso:
As leis naturais pelo próprio jogo parecem extinguir, a pouco e pouco, o produto anômalo que as viola, afogando-o nas próprias fontes geradoras” (Euclides da Cunha: “Os Sertões”). / “No tempo da conciliação, a política imperial, aliás com intenções louváveis, longe de promover a restauração dos antigos ou criação de novos partidos até certo ponto concorreu para agravar esse estado anômalo, com a conhecida repugnância de usar da prerrogativa de dissolver a câmara” (José de Alencar: “Escritos Políticos”). / “O professor estudou no gabinete; consultou as obras dos mestres, coligiu observações alheias, e arranjou um sistema sobre o que não sofre regras: sobre a paixão cuja essência é o imprevisto, o anômalo, o indefinível” (José de Alencar: “A Pata da Gazela”).

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20 de out de 2015

Quem é o Anacoreta?

Trata-se de um termo latim anachoreta, do grego anachoreo: eu me retiro, composto do prefixo ana: para trás, para dentro, e choreo: eu vou. Anacoreta é o solitário, emitirão, que vive  afastado das relações sociais e que se entregou à virtude e à penitência.

Exemplos de uso: 
... E surgia na Bahia o anacoreta sombrio, cabelos crescidos até aos ombros, barba inculta e longa; face escaveirada; olhar fulgurante; monstruoso, dentro de um hábito azul de brim americano; abordoado ao clássico bastão em que se apóia o passo tardo dos peregrinos...” (Euclides da Cunha: “Os Sertões”). / “Ainda que sem fé a princípio, e sem esperança alguma de resultado - e talvez por isso mesmo - entregou-se como outrora às práticas do mais austero ascetismo, e na solidão de sua cela deu-se à vida de penitência e contemplação com uma exaltação e fervor dignos dos antigos anacoretas dos desertos da Calcida, da Nitria e da Tebaida” (Bernardo Guimarães: “O Seminarista”). / “Mandou-lhe o mestre abrir a boca, na qual havia três dentes, um à frente, que me parecia uma sentinela da saúde, para não deixar ninguém chegar ali sem primeiro fazer quarentena com receio de peste. Outro num lado, que me parecia um anacoreta pelo solitário e amarelo; e outro do outro lado, que me pareceu destes bonecos da China, que em se lhe mexendo ficam a dar com a cabeça por algum espaço” (Antônio Manuel Policarpo da Silva: “O Piolho Viajante”).


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É isso!