30 de out de 2012

Machado de Assis escreve sobre “Etimologia”



CARNAVAL ETC. (“A Semana”):
Tal é a filosofia do carnaval; mas qual é a etimologia? O Sr. Dr. Castro Lopes reproduziu terça-feira a sua explicação do nome e da festa. Discordando dos que vêem no carnaval uma despedida da carne para entrar no peixe e no jejum da quaresma (caro vale, adeus, carne), entende o nosso ilustrado patrício que o carnaval é uma imitação das lupercais romanas, e que o seu nome vem dali. Nota logo que as lupercais eram celebradas em 15 de fevereiro; matava-se uma cabra, os sacerdotes untavam a cara com o sangue da vítima, ou atavam uma máscara no rosto e corriam seminus pela cidade. Isto posto, como é que nasceu o nome carnaval?
Apresenta duas conjecturas, mas adota somente a segunda, por lhe parecer que a primeira exige uma ginástica difícil da parte das letras. Com efeito, supõe essa primeira hipótese que a palavra lupercalia perdeu as letras l, p, i, ficando uercala; esta, torcida de trás para diante, dá careual; a letra u entre vogais transforma-se em v, e daí careval; finalmente, a corrupção popular teria introduzido um n depois do r, e ter carneval, que, com o andar dos tempos, chegou a carnaval. Realmente, a marcha seria demasiado longa. As palavras andam muito, em verdade, e nessas jornadas é comum irem perdendo as letras; mas, no caso desta primeira conjectura, a palavra teria não só de as perder, mas de as trocar tanto, que verdadeiramente meteria os pés pelas mãos, chegando ao mundo moderno de pernas para o ar. Ginástica difícil. A segunda conjectura parece ao Sr. Dr. Castro Lopes mais lógica, e é a que nos dá por solução definitiva do problema.
Ei-la aqui. “Era muito natural, diz o ilustrado lingüista, que nessas festas se entoasse o canto dos irmãos arvais; muito naturalmente também ter-se-á dito, às vezes, a festa do canto arval (cantus arvalis), palavras que produziram o termo carnaval, cortada a última sílaba de cantos e as duas letras finais de arvalis. De canarval a carnaval a diferença é tão fácil, que ninguém a porá em dúvida”.
A etimologia tem segredos difíceis, mas não invioláveis. A genealogia é a mesma coisa. Quem sabe se o leitor, plebeu e manso, jogador do voltarete e mestre-sala, não descende de Nero ou de Camões. As famílias perdem as letras, como as palavras, e a do leitor terá perdido a crueldade do imperador e a inspiração do poeta; mas se o leitor ainda pode matar uma galinha, e se entre os dezoito e vinte anos compôs algum soneto, não se despreze; não só pode descender de Nero ou de Camões, mas até de ambos.
Por isso, não digo sim nem não à explicação do Sr. Dr. Castro Lopes. Digo só que o sábio Ménage achou, pelo mesmo processo, que o haricot dos franceses vinha do latim faba. À primeira vista parece gracejo; mas eis aqui as razões do etimologista: “On a dû dire faba, puis fabaricus, puis fabaricotus, aricotus et enfin haricot”. Há seguramente um ponto de partida conjectural, em ambos os casos. O on a dú dire de Ménage e o ter-se-á dito de Castro Lopes são indispensáveis, uma vez que nenhum documento ou monumento nos dá a primeira forma da palavra. O resto é lógico. Toda a questão é saber se esse ponto de partida conjetural é verdadeiro. Mas que há neste mundo que se possa dizer verdadeiramente verdadeiro Tudo é conjetural. Dai-me um axioma: a linha reta é a mais curta entre dois pontos. Parece-nos que é assim, porque realmente, medindo todas as linhas possíveis, achamos que a mais curta é a reta; mas quem sabe se é verdade?
O que eu nego ao nosso Castro Lopes, é o papel de Cassandra que se atribui, afirmando que não é atendido em nada. Não o será em tudo; mas há de confessar que o é em algumas coisas. Há palavras propostas por ele, que andam em circulação, já pela novidade do cunho, já pela autoridade do emissor. Cardápio e convescote, são usados. Não é menos usado preconício, proposto para o fim de expelir o reclame dos franceses, embora tenhamos reclamo na nossa língua, com o mesmo aspecto, origem e significação. Que lhe falta ao nosso reclamo? Falta-lhe a forma erudita, a novidade, certo mistério. Eu, se não emprego convescote, é porque já não vou a tais patuscadas, não é que lhe não ache graça expressiva. O mesmo digo de cardápio.
Nem tudo se alcança neste mundo. Um homem trabalha quarenta anos para só lhe ficar a obra de um dia. Felizes os que puderem deixar uma palavra ou duas: terão contribuído para o lustre do estilo dos pósteros, e dado veículo asseado a uma ou duas idéias. Filinto Elísio mostra o exemplo do marquês de Pombal, que, tendo de expedir uma lei, introduziu nela a palavra apanágio, logo aceita por todos.
“Apanágio passou; hoje é corrente”, disse o poeta em verso. Ai, marquês! marquês! digo eu em prosa, quem sabe se de tantas coisas que fizeste, não é esta a única obra que te há de ficar?

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MEDICINA (“Badaladas”):
Mas o leitor está achando isto muito grave, e pergunta-me naturalmente, ao ler a palavra medicina, se eu conheço a sua etimologia.
Por que não?
A etimologia de medicina é, como acontece com outras palavras, uma lenda.
Conta-se que, no tempo do rei Numa, o corpo médico era composto unicamente de coveiros, regidos por um coveiro-mor, chamado Cinna, avô, dizem, da tragédia de Corneille.
Adoecia um romano (eterno romano!) iam os coveiros a casa do doente medir-lhe o corpo para abrir a sepultura.
— Mediste, Caio? Perguntava o chefe.
Medi, Cina, respondia o coveiro oficial.”

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É isso!

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