30 de out de 2012

José de Alencar escreve sobre “Etimologia”



BOMBEIRO “O Gaúcho”):
”Partiu o Canho como bombeiro. Assim chamam na campanha as vedetas destacadas que precedem os corpos militares, explorando o campo, e dando aviso da aproximação de qualquer partida suspeita. A etimologia dessa palavra, desconhecida na língua com semelhante significação, nenhum sábio por certo a aventará. No estilo pitoresco do gaúcho, o bombeiro é o peão que surge de repente, para não dizer que estoura como uma bomba, do meio da macega, e desaparece logo”.
OURO (“Sonhos D’Ouro”):
“Os etimologistas, gente que profetiza o passado e inventa o esquecido, dizem que ouro, palavra de origem egípcia, significou primitivamente a luz, o sol, passando a designar o metal precioso por analogia. Se assim foi, como me parece racional, Guida personificava o ouro segundo a delicada comparação da poesia oriental; era o sol esplêndido da fortuna; era a réstia de luz coalhada em barra, o prisma bancário, o raio amoedado”.


DILETANTE ETC. (“Ao Correr da Pena”):
”Um espírito observador, recorrendo a certos dados estatísticos, conseguiu também descobrir que o homem mais útil desta corte é o dilettante. Cumpre-me, porém, notar que, quando falamos em dilettante, não compreendemos o homem apaixonado de música, que prefere ouvir uma cantora, sem por isso doestar a outra. Dilettante é um sujeito que não tem nenhuma destas condições, que vê a cantora, mas não ouve a música que ela canta; que grita bravo justamente quando a prima-dona desafina, e dá palmas quando todos estão atentos para ouvir uma bela nota.
São muito capazes de levantar alguma questão gramatical sobre a minha definição, tachando-a de paradoxo, ou demonstrando por meio da etimologia da palavra que estou em erro. Mas isto pouco abalo me dá; os gramáticos que discutam, fazem o seu ofício, contanto que não se arvorem em alfaiates ou comecem atalhar carapuças.
Voltando, porém, a nossas observações, é fato provado que o dilettante é o homem que mais concorre para a utilidade pública. Em primeiro lugar, o extraordinário consumo que ele faz de flores não pode deixar de dar grande desenvolvimento à horticultura, e de auxiliar a fundação de um estabelecimento deste gênero, como já se tentou infrutiferamente nesta corte antes do dilettantismo ter chegado ao seu apogeu”.

POLÍTICA (“Ao Correr da Pena”):
“Falemos de política.
É um tema muito delicado, sobretudo na época atual.
 Mas o que é política?
Se a etimologia não mente, é a ciência do governo da cidade.
Pode ser que esta definição não lhes agrade; mas isto pouco me embaraça. Estou expondo um novo sistema social; é natural que me aparte das opiniões geralmente admitidas.
Continuemos.
A política é o governo da cidade. A cidade se compõe de freguesias, de ruas, de casa, de famílias e de indivíduos, assim como a nação de províncias e municípios.
Já se vê, pois, que a política deve ser também a ciência de bem governar a casa ou a família, e de promover os interesses dos indivíduos”.

ROFADO (“Diva”): “Não sei por que não mencionam os dicionários o verbo rofar, do latim rufo, quando dão os nomes respectivos, rofo, prega, e rofo, rugado. Esse verbo foi admitido no composto arrufar com uma ortografia mais semelhante à etimologia. Prefiro rofar, para distinguir de rufar: tocar ruflas no tambor.

GÁRCEO – Não é o adjetivo garço ou zarco, que significa azul esbranquiçado; mas o derivado de garça, como róseo foi derivado de rosa.

GARRULAR – Da propriedade que tem nossa língua de criar novos verbos já falou com muito critério o autor do Gênio da língua portuguesa. Facilmente se adapta uma desinência verbal a qualquer nome, verbo. É o que se fez ao adjetivo gárrulo, criando-se assim o verbo para suprir a falta que nos faz o radical latino garrio, que bem se podia traduzir garrir.
De resto garrular tem procedência igual à de escapulir, que provém de escapulo em primeiro grau e de escapar em segundo.


ELANCE ETC.
É bem possível que algum leitor enxergasse nessa palavra uma tradução ridícula e extravagante do vocábulo francês élan, e se horrorizasse do galicismo.
Mas espero que repare tal injustiça cometida contra o inocente autor.
A língua latina tem a palavra lancea, lança, da qual derivaram as seguintes: lanceo, meter a lança; lancisco, ferir com a lança.
Passaram essas palavras com pequena modificação para a língua portuguesa, a qual, pela propriedade que tem de criar substantivos verbais, de lançar tirou logo lançamento, como de defender, mover, conceber, aparecer, derivou defendimento, movimento,, concebimento, aparecimento, e muitos outros desconhecidos no latim.
Outra propriedade preciosa da nossa língua é comunicar ao nome a idéia de atividade ou passividade da ação verbal por meio de certas desinências em que ela é muito rica. Assim essa desinência em ento, talvez corrupção do gerúndio latino agendus, exprime um movimento sucessivo, ainda não acabado. Exemplo: revolvimento. A desinência em ão, de actio, indica o movimento rápido e consumado. Exemplo: revolução. A essas duas desinências ativas correspondem outras duas passivas, em ado ou ada, ido ou ida, de actus, que significa o objeto que já sofreu o movimento do verbo. Exemplo: mandado. A outra é uma desinência irregular, ou antes não é desinência, mas ausência dela, e contração dos nomes em ento para designar o movimento passivo, ou o efeito do anterior movimento, como mando, que é o
efeito de mandar.
 Sobre estas desinências pode-se ver a obra já citada, Gênio da língua portuguesa, a qual contudo não é completa.
Nada mais natural, em vista do expendido, que a língua portuguesa tendo criado o nome verbal lançamento o apassivasse por contração e fizesse lance para exprimir o efeito do movimento do verbo, como o outro exprimia esse mesmo movimento continuado. Igual operação ideológica houve na palavra realce, engaste, encaixe, disfarce, transe, contração de realçamento, engastamento, encaixamento, disfarçamento e transimento. Nenhum desses nomes contraídos e passivos tem equivalentes no latim.
Tal é a verdadeira etimologia da palavra portuguesa lance; e não a que dá Morais, derivando-a do francês élan, ou a que procurou Constâncio arbitrariamente e conforme seu
costume na palavra grega laxis. Que necessidade tinha a língua de socorrer-se de elemento estranho, quando em si própria tinha o necessário para dar raiz lancea tirar por gradações o vocábulo lance?
Ao passo que em português a radical era assim desenvolvida, no francês produzia o verbo lancer, o nome lancement, e segundo pretende Bescherelle e os melhores dicionários esse outro nome composto élan e seus derivados élancer, etc. Quanto a mim, élan parece antes uma corrupção por transposição de an-helus; a sua significação de ímpeto ou salto arrebatado é figurada e não primitiva.
Como quer que for, tenham os franceses feito o seu vocábulo élan ou lancea ou de anhelus, como nós fizemos o nosso de lance, não podemos nós os portugueses explorar mais essa fonte para dela haurir as riquezas que existam sem incorrer em crime de galicismo?  Porque os franceses compuseram a raiz, e criaram élan, élancer, élancement, não é permitido ao escritor português usar de igual direito e prerrogativa?
Quando de lance fizeram os bons autores relance, relancear, juntando o prefixo que indica repetição, concederam autoridade para todos aqueles compostos que forem necessários e harmoniosos. Elance está nesse caso; ele é parente próximo e eflúvio, efeito, efúgio, efusão, elisão, emanação, e tantos outros formados da preposição e ou ex que exprime a emissão ou produção externa da ação.

RUTILO – De restilar, brilhar, trilar, fizeram restilo, brilho e trilo; de cintilar, cintila ou centelha. Por que razão o verbo rutilar, um dos mais belos da língua portuguesa, não havia de ter um só nome substantivo, quando outros têm-os os três e quatro? Nada de privilégios, nem mesmo para os vocábulos;  igualdade perante a língua, como perante a lei.

ROÇAGAR – Este verbo, se não me engano, já foi usado; eu mesmo o escrevi freqüentes vezes sem investigar dos seus títulos e diplomas. De feito, sendo o particípio presente roçagante consagrado, parece que não pode ele existir sem o verbo, cujo é. Constâncio diz, é verdade, que deriva roçagante de roçar; mas creio que não obstante seus devaneios em matéria de etimologia, não pretendeu ele que fosse o particípio daquele verbo.
Aqui aparece a desinência ejar de que falamos em outra nota, mais aproximada da radical ago. Essa desinência, como foi dito, comunica ao verbo a idéia de iniciativa e atividade; e por dedução a idéia de freqüência e repetição. Roçagar é pois uma variante de rocegar ou rossejar; variante de grande estimação pela beleza e harmonia. Sua verdadeira significação deve ser a seguinte: produzir roçamento freqüente e repetido.
Daí veio chamar-se roçagante a roupa talar e ampla, não somente porque arrasta no chão, como dizem Morais e Constâncio, mas porque suas muitas dobras tocando-se de leve umas às outras produzem um roçamento repetido, rossejam. [...]
O verbo arregaçar não exprime tanto nem tão bem; é mais do que colher e seus compostos, pois é colher fazendo seio ou regaço; mas não dá a idéia de ondulação contínua, e nem a da rejeição do véu por sobre a cabeça. Arregaçar o véu é levantá-lo apenas; roçagar é atirá-lo para as espáduas. Em idêntica significação o empreguei“...enquanto a mão ligeira roçagava os amplos folhos da seda que rugia arrastando.” Traduza-se: enquanto a mão ligeira rejeitava fazendo roçar uns nos outros repetidas vezes os amplos folhos, etc.”

FRONDES – A palavra latina frons, ondis, que significa propriamente a folha superior e recente, o renovo-gérmen, arborum, hervarum et florum. Introduzida na linguagem científica por Lineu, foi logo adotada, como merecia, pela linguagem literária e artística, onde ela vem aumentar a família de vocábulos que receberam do latim os nossos clássicos frondear, frondejar, frondente, frondoso, frondífero, etc.
Para exprimir os renovos das palmeiras ela é sobretudo de grande beleza, porque acrescenta a idéia de elevação.

AFLAR – A virtude ou vício desse vocábulo me deve ser imputado, porque fui eu o primeiro que o transportei para a nossa língua ex auctoritate qua scriboi.
Afflo vel adflo, ad aliquid spiro, vel flatu contingo, composto de ad, para, e flo, soprar. Se acharem na língua portuguesa um verbo que exprima ao mesmo tempo, com tanta propriedade, elegância e beleza imitativa, o movimento produzido pelo bafejo da aragem sobre as folhas, ou a ondulação de certos objetos que agitam o ar, como o leque, os folhos de um vestido, etc., eu confessarei que cometi uma superfluidade emprestando do latim essa palavra nova.
Mas duvido que achem termo nessas condições. Eu conheço soprar, arejar, bafejar, arar, espirar e seus compostos, ventilar, e talvez outros que me não recordem agora. Nenhum deles satisfaz: soprar, arejar, ventar e ventilar têm a significação genérica de emitir sopro, ar ou vento; bafejar é o ar ligeiro que expelimos pela boca, ou figuradamente o que se lhe assemelha pela brandura e tepidez; espirar, respirar, suspirar significam várias modificações no movimento do ar vital; arfar exprime a ondulação produzida pelo ar interior.
Aflar porém reúne a significação de muito desses verbos. Ele indica a emissão do ar, acrescentando a idéia de um lugar para, ad. Afla a brisa, sopra para, dirige-se a outro lugar. Indica também, como arfar, uma ondulação produzida pelo ar, mas não é de expansão, e sim de deslocação. O seio arfa porque se intumesce de ar; a palma afla porque o sopro intermitente a embalança.
A grande beleza porém do vocábulo está na onomatopéia; afla é o som harmonioso de certos movimentos que o verbo seja chamado a exprimir: afla um mimoso leque meneado lentamente, um vestido de chamalote com a ondulação do andar gracioso, uma bandeira agitada pela brisa, etc.

RUBESCÊNCIA – Já se tratou da desinência verbal escer, que designa continuação gradual, progressiva e lenta. A essa desinência verbal corresponde a dos substantivos derivados encia, que exprimem a mesma idéia.
A língua portuguesa foi parca em seu empréstimo da latina quanto à família deste vocábulo; apenas tomou o substantivo rubor, o adjetivo rúbido, e o verbo composto enrubescer; desprezou o verbo rubir, de rubeo, ser vermelho, o substantivo rubidino, is, rubidez, que outros adotaram quando sentiram a necessidade, e com tão bom direito como foram adotados languir e languidez.
Eu limitei-me a adotar o verbo simples rubescer e seu substantivo rubescência,

porque careci dele para exprimir a minha idéia. Rubor exprime o efeito da ação verbal rubeo. O outro derivado, rubidez, se fosse admitido, exprimiria um estado ou qualidade, conforme a ação. Rubescência porém indica a gradação da cor que se vai acendendo nas faces até chegar a ser rubor.

FERVILHAR – É palavra conhecida e usada; é o diminutivo de ferver. Essa propriedade de diminuir a significação dos verbos, como de a aumentar pela desinência, é outro privilégio da língua portuguesa.


CEARÁ (“Iracema”):
Diz a tradição que Ceará significa na língua indígena — canto de jandaia.
Aires do Casal, Corografia Brasílica, refere essa tradição. O senador Pompeu em seu excelente dicionário topográfico, menciona uma opinião, nova para mim, que pretende vir Siará da palavra suiacaça, em virtude da abundância de caça que se encontrava nas margens do rio. Essa etimologia é forçada. Para designar quantidade,  usava a língua tupi da desinência iba; a desinência ára junta aos verbos designa o sujeito que exercita a ação atual; junta aos nomes o que tem atualmente o objeto; ex.: Coatiarao que pinta; Juçarao que tem espinhos.
Ceará é o nome composto de cemocantar forte, clamar, e ará — pequena arara ou periquito. Essa é a etimologia verdadeira; não só conforme com tradição, mas com as regras da língua.

JIRAU — Na jangada é uma espécie de estrado onde acomodam os passageiros; e às vezes o cobrem de palha. Em geral é qualquer estiva elevada do solo e suspensa em forquilhas.

RUGITAR — É um verbo de minha composição para o qual peço vênia. Filinto Elísio criou ruidar de ruído.


IRACEMA — Em guarani significa lábios de mel — de ira, mel e tembelábios. Tembe na composição altera-se em ceme, como na palavra ceme-iba.


GRAÚNA — É o pássaro conhecido de cor negra luzidia. Seu nome vem por corrupção de guirapássaro, e una, abreviação de pixunapreto.

JATI — Pequena abelha que fabrica delicioso mel.

IPU — Chamam ainda hoje no Ceará certa qualidade de terra muito fértil, que forma grandes coroas ou ilhas no meio dos tabuleiros e sertões, e é de preferência procurada para a cultura. Daí se deriva o nome dessa comarca da província.

TABAJARAS — Senhores das aldeias, de tabaaldeia, e jarasenhor. Essa nação dominava o interior da província, especialmente a serra de Ibiapaba.

OITICICA — Árvore frondosa, apreciada pela deliciosa frescura que derrama sua sombra.

GARÁ — Ave paludal, muito conhecida pelo nome de guará. Penso eu que esse nome anda corrompido de sua verdadeira origem, que é igágua, e aráarara: arara d´água. Também assim chamada pela bela cor vermelha.

ARÁ — Periquito. Os indígenas como aumentativo usavam repetir a última sílaba da palavra e às vezes toda a palavra, como murémuré. Muréfrauta, muremurégrande frauta. Arárá vinha a ser, pois, o aumentativo de ará, e significaria a espécie maior do gênero.

URU — Cestinho que servia de cofre às selvagens para guardar seus objetos de mais preço e estimação.

CRAUTÁ — Bromélia vulgar, de que se tiram fibras tão ou mais finas que as do linho.

JUÇARA — Palmeira de grandes espinhos, das quais servem-se ainda hoje para dividir os fios de renda.

UIRAÇABA — Aljava, de uira — seta, e a desinência çabacoisa própria.


IBIAPABA — Grande serra que se prolonga ao norte da província e a extrema com Piauí. Significa terra aparada. O Dr. Martius em seu Glossário lhe atribui outra etimologia Ibyterra, e pabetudo. A primeira porém tem a autoridade de Vieira.

IGAÇABA — De igágua, e a desinência çabacoisa própria. Vaso, pote.


JAGUARIBE — O maior rio da província; tirou o nome da quantidade de onças que povoavam suas margens. Jaguaronça, iba — desinência para exprimir cópia, abundância.


MARTIM — Da origem latina de seu nome, procedente de Marte, deduz o estrangeiro a significação que lhe dá.


PITIGUARAS — Grande nação de índios que habitava o litoral da província e estendia-se desde o Parnaíba até o Rio Grande do Norte. A ortografia do nome anda mui viciada nas diferentes versões, pelo que se tornou difícil conhecer a etimologia  Iby significava terra; iby-tira veio a significar serra, ou terra alta. Aos vales chamavam os indígenas iby-tira-cuacintura das montanhas. A desinência jarasenhor, acrescentada, formou a palavra Ibiticuara, que por corrução deu Pitiguarasenhores dos vales.

JUREMA — Árvore meã, de folhagem espessa; dá um fruto excessivamente amargo, de cheiro acre, do qual juntamente com as folhas e outros ingredientes preparavam os selvagens uma bebida, que tinha o efeito do haxixe, de produzir sonhos tão vivos e intensos, que a pessoa fruía neles melhor do que na realidade. A fabricação desse licor era um segredo, explorado pelos pajés, em proveito de sua influência. Jurema é composto de juespinho, e remacheiro desagradável.

IRAPUÃ — De iramel, e apuamredondo; é o nome dado a uma abelha virulenta e brava, por causa da forma redonda de sua colmeia. Por corrupção reduziu-se esse nome atualmente a arapuá. O guerreiro de que se trata aqui é o célebre Mel Redondo, assim chamado pelos cronistas do tempo que traduziram seu nome ao pé da letra. Mel Redondo, chefe dos tabajaras da serra de Ibiapaba, foi encarniçado inimigo dos portugueses e amigo dos
franceses.

ACARAÚ — O nome do rio é Acaracu — de acarágarça, coburaco, toca, ninho e y — som dúbio entre i e u, que os portugueses ora exprimiam de um, ora de outro modo, significando água. Rio do ninho das garças é, pois, a tradução de Acaracu; e rio das garças a de Acaraú. Usou-se aqui da liberdade horaciana para evitar em uma obra literária, obra de gosto e artística, um som áspero e ingrato. De resto quem sabe se o nome primitivo não foi realmente Acaraú, que se alterou como tantos outros, pela introdução da consoante?

BOICININGA — É a cobra cascavel, de boia — cobra, e cininga — chocalho.

OITIBÓ — É uma ave noturna, espécie de coruja.


 BORÉ — Frauta de bambu, o mesmo que muré.

OCARA — Praça circular que ficava no centro da taba, cercada pela estacada, e para a qual abriam todas as casas. Composto de ocacasa, e a desinência ara — que tem; aquilo que tem a casa, ou onde a casa está.


POTIUARA Comedor de camarão; de poty e uara. Nome (potiguara) que por desprezo davam os inimigos aos pitiguaras, que habitavam as praias e viviam em grande parte da pesca. Este nome dão alguns escritores aos pitiguaras, porque o receberam de seus inimigos.


POCEMA — Grande alarido que faziam os selvagens nas ocasiões solenes, como em começo de batalha, ou nas expansões da alegria; é palavra adotada já na língua portuguesa e inserida no dicionário de Morais. Vem de po mão, e cemoclamar: clamor das mãos, porque os selvagens acompanhavam o vozear com o bater das palmas e das armas.


ANDIRA — Morcego; é em alusão a seu nome que Irapuã dirige logo palavras de desprezo ao velho guerreiro.


ARACATI — Significa este nome bom tempo — de ara e catu. Os selvagens do sertão assim chamavam as brisas do mar que sopram regularmente ao cair da tarde e, correndo pelo vale do Jaguaribe, se derramam pelo interior e refrigeram da calma abrasadora do verão. Daí resultou chamar-se Aracati o lugar de onde vinha a monção. Ainda hoje no Icó o nome é conservado à brisa da tarde, que sopra do mar.

AFLAR — Sobre este verbo que introduzi na língua portuguesa do latim afflo, já escrevi o que entendi em nota de uma segunda edição da Diva, que brevemente há de vir à luz.

ANHANGÁ — Davam os indígenas este nome ao espírito do mal; compõe-se de anho, e angáalma. Espírito só, privado de corpo, fantasma.


CAMUCIM — Vaso onde encerravam os indígenas os corpos dos mortos e lhes servia de túmulo; outros dizem camotim, e talvez com melhor ortografia, porque, se não me engano, o nome é corrupção da frase co buraco, ambiradefunto, anhotimenterrar; buraco para enterrar o defunto: c´am´otim. O nome dava-se também a qualquer pote.

GUABIROBA — Deve ler-se Andiroba. Árvore que dá um azeite amargo.


MOQUÉM — Do verbo mocáemassar na labareda. Era a maneira por que os indígenas conservavam a caça para não apodrecer, quando a levavam em viagem. Nas cabanas a tinham no fumeiro.

JURUPARI — Demônio; de juruboca, e aparatorto, aleijado. O boca torta.

UBAIA — Fruta conhecida da espécie eugênia. Significa fruta saudável; de ubafruta, e aiasaudável.

Jandaia — Este nome que anda escrito por diversas maneiras, nhendaia, nhandaia, e em todas alterado, é apenas um adjetivo qualificativo do substantivo ará. Deriva-se ele das palavras nhengfalar, antan — duro, forte, áspero, e ara — desinência verbal que exprime o agente: nh´ant´ara; substituído o t por d e o r por i, tornou-se nhandaia, donde jandaia, que se traduzirá por periquito grasnador. Do canto desta ave, como se viu, é
que vem o nome de Ceará, segundo a etimologia que lhe dá a tradição.

INHUMA — Ave noturna palamedea. A espécie de que se fala aqui é a Palamedea chavaria, que canta regularmente à meia-noite. A ortografia melhor creio ser anhuma, talvez de anho, e anum — ave agoureira conhecida. Significaria então anum solitário, assim chamado pela tal ou qual semelhança do grito desagradável.


INÚBIA — Trombeta de guerra. Os indígenas, segundo Lery, as tinham tão grandes que mediam muitos palmos no diâmetro de abertura.

GUARÁ — Cão selvagem, lobo brasileiro. Provém esta palavra do verbo ucomer, do qual se forma com o relativo g e a desinência ara o verbal g-u-áracomedor. A sílaba final longa é a partícula propositiva ã que serve para dar força à palavra.


G-U-ÁRA-Á — realmente comedor, voraz.


JIBÓIA — Cobra conhecida; de gimachado, e boiacobra. O nome foi tirado da maneira por que a serpente lança o bote, semelhante ao golpe do machado; pode traduzir-se bem: cobra de arremesso.

SUCURI — A serpente gigante que habita nos grandes rios e engole um boi. De suuanimal, e cury ou curu roncador. Animal roncador, porque de feito o ronco da sucuri é medonho.


UBIRATÃ — Pau-ferro; de ubirapau, e antanduro.


MARACAJÁ — Gato selvagem.

CAITITUS — Porco-do-mato, espécie de javali brasileiro. De caetémato grande e virgem, e suucaça, mudado o s em t na composição pela eufonia da língua. Caça do mato virgem.


JAGUAR — Vimos que guará significa voraz. Jaguar tem inquestionavelmente a mesma etimologia; é o verbal guara e o pronome nós. Jaguar era, pois, para os indígenas, todos os animais que os devoravam. Jaguaretéo grande devorador.

ACAUÃ — Ave inimiga das cobras; de caa — pau, e uan, do verbo u — que come pau.


SAÍ — Lindo pássaro, azul.


CARIOBA — Camisa de algodão; de carybranco, e obaroupa. Tinha também a araçóia, de arara e oba — vestido de penas de arara.


JACI — A Lua. De já — pronome nós, e cymãe. A Lua exprimia o mês para os selvagens; e seu nascimento era sempre por eles festejado.

 BUCÃ — Significa uma espécie de grelha que os selvagens faziam para assar a caça, daí vem o verbo francês boucaner. A palavra é da língua tupi.


ABAETÉ — Varão abalizado; de abahomem, e etéforte, egrégio.

JACAÚNA — Jacarandá-preto, de jaca — abreviação de jacarandá, e unapreto. Este Jacaúna é o célebre chefe, amigo de Martim Soares Moreno.


JAPI — Significa nosso pé; do pronome nós, py.


IBIAPINA — De ibyterra, e apinotosquiar.


JATOBÁ — Grande árvore real. O lugar da cena é o sítio da hoje Vila Viçosa, onde diz a tradição ter nascido Camarão.

MERUOCA — De merumosca, e ocacasa. Serra junto de Sobral, fértil em mantimentos.

URUBURETAMA — Pátria ou ninho de urubus: serra bastante alta.


MUNDAÚ — Rio muito tortuoso que nasce na serra de Uruburetama. Mundécilada, e hurio.

POTENGI — Rio que rega a cidade de Natal, donde era filho Soares Moreno.


SOIPÉ — País da caça. De sôocaça, e ipélugar onde. Diz-se hoje Suipé, rio e povoação pertencente a freguesia e termo da Fortaleza, situada à margem dos alagados chamados Jaguaruçu, na embocadura do rio.

IGUABE — Enseada distante duas léguas de Aquirás. De igágua, cuacintura, e ipéonde.


MOCORIBE — Morro de areia na enseada do mesmo nome, a uma légua do Fortaleza; diz-se hoje Mucuripe. Vem de coribalegrar, e mo, partícula ou abreviatura do verbo monhangfazer, que se junta aos verbos neutros e mesmo ativos para dar-lhes significação passiva; ex.: caneonafligir-se, mocaneonfazer alguém aflito.


TAPUIAS — Em tupi — tapuitinga. Nome que os pitiguaras davam aos franceses para diferençá-los dos tupinambás. Tapuia significa bárbaro, inimigo. De tabaaldeia, e puirfugir: os fugidos da aldeia.


MAIRI — Cidade. Talvez provenha o nome de mairestrangeiro, e fosse aplicado aos povoados dos brancos em oposição às tabas dos índios.


BATUIRETÉ — Narceja ilustre; de batuira e eté. Apelido que tomara o chefe pitiguara, e que na linguagem figurada valia tanto como valente nadador. É o nome de uma serra fertilíssima e da comarca que ela ocupa.


JATOBÁ — Árvore frondosa, talvez de jetahy, obafolha, e a, aumentativo; jetaí de grande copa. É o nome de um rio e de uma serra em Santa Quitéria.


QUIXERAMOBIM — Segundo o Dr. Martius traduz-se por essa exclamação de saudade. Compõe-se de Qui — Ah!, xeremeus, amôbinhêoutros tempos.

MARANGUAB — A serra de Maranguape, distante cinco léguas da capital, e notável pela sua fertilidade e formosura. O nome indígena compõe-se de maranguerrear, e coaubsabedor; maran talvez seja abreviação de maramonhangfazer guerra, se não é, como eu penso, o substantivo simples guerra, de que se fez o verbo composto. O Dr. Martius traz etimologia diversa. Maraárvore, angaide nenhuma maneira, guabecomer.
Esta etimologia nem me parece própria ao objeto, que é uma serra, nem conforme com os preceitos da língua.

PIRAPORA — Rio de Maranguape, notável pela frescura de suas águas e excelência dos banhos chamados de Pirapora, no lugar das cachoeiras. Provém o nome de Pirapeixe, poresalto; salto do peixe.

PORANGABA — Significa beleza. É uma lagoa distante da cidade uma légua em sítio aprazível. Hoje a chamam Arronches; em suas margens está a decadente povoação do mesmo nome.

JERERAÚ — Rio das marrecas; de jerere ou irerêmarreca, e huágua. Este lugar ainda hoje é notável pela excelência de frutas, com especialidade as belas laranjas conhecidas por laranjas de Jereraú.

SAPIRANGA — Lagoa no sítio Alagadiço Novo, a cerca de duas léguas da capital. O nome indígena significa olhos vermelhos, de ceçaolhos, e pirangavermelhos. Esse mesmo nome dão usualmente no Norte a certa
oftalmia.

MURITIAPUÁ — De muriti — nome da palmeira mais vulgarmente conhecida por buriti, e apuãilha. Lugarejo no mesmo sítio referido.


ARATANHA — De araraave, e tanhabico. Serra mui fértil e cultivada, em continuação da de Maranguape.


GUAIÚBA — De goaiavale, y água, jurvir, bepor onde: por onde vêm as águas do vale. Rio que nasce na serra da Aratanha e corta a povoação do mesmo nome a seis léguas da capital.


PACATUBA — De paca e tuba, leito ou couto das pacas. Recente, mas importante povoação, em um belo vale da serra da Aratanha.


ÂMBAR — As praias do Ceará eram nesse tempo abundantes de âmbar que o mar arrojava. Chamavam-lhe os indígenas pira repotiesterco de peixe.


COATIÁ — pintar. — A História menciona esse fato de Martim Soares Moreno se ter coatiado quando vivia entre os selvagens do Ceará.


COATIABO — A desinência abo significa o objeto que sofreu a ação do verbo, e talvez provenha de abagente, criatura.

CARBETO — Espécie de serão que faziam os índios à noite em uma cabana maior, onde todos se reuniam para conversar. Leia-se Ives d´Evreux, Viagem ao Norte do Brasil.


MOCEJANA — Lagoa e povoação a duas léguas da capital. O verbo cejar significa — abandonar; a desinência ana indica a pessoa que exercita a ação do verbo. Cejana significa o que abandona. Junta à partícula mo do verbo monhangfazer, vem a palavra a significar o que fez abandonar ou que foi lugar e ocasião de abandonar.

MONGUBA — Árvore que dá um fruto cheio de cotão, semelhante ao da sumaúma, com a diferença de ser negro. Daí veio o nome de uma parte da serra de Maranguape, onde tem estabelecimento rural o tenente-coronel
João Franklin de Alencar.

IMBU — Fruta da serra do Araripe que não tem no litoral. É saborosa e semelhante ao cajá.


JACARECANGA — Morro de areia na praia do Ceará afamado pela fonte de água fresca puríssima. Vem o nome de jacarécrocodilo, e acangacabeça.

JAPIM — Pássaro cor-de-ouro com encontros pretos e conhecido vulgarmente pelo nome de sofrê.


TUPINAMBÁS — Nação formidável, ramo primitivo da grande raça tupi. Depois de uma resistência heróica, não podendo expulsar os portugueses da Bahia, emigraram até o Maranhão, onde fizeram aliança com os franceses, que já então infestavam aquelas paragens. O nome que eles se davam significa — gente parente dos tupis, de tupianamaaba.


MARACATIM — Grande barco que levava na proa — tim — um maracá. Aos barcos menores ou canoas chamavam igara, de igágua, e jarasenhor; nhora d´água.

CAIÇARA — De caipau queimado e a desinência çara, cousa que tem, ou se faz; o que se faz de pau queimado. Era uma forte estacada de pau-a-pique.

MOACIR — Filho do sofrimento: de moacidor, e ira — desinência que significa — saído de.


CARIMÃ — Uma conhecida preparação de mandioca. Cariccorrer, manimandioca: mandioca escorrida.

TAUAPE — Lugar do barro amarelo: de tauá e ipé. Fica no caminho de Maranguape.

PIAU — Peixe que deu o nome ao rio Piauí.

ITAÓCA — Casa de pedra, fortaleza.

MANACÁ — Linda flor. Veja-se o que diz a respeito o Sr. Gonçalves Dias em seu dicionário.

CUPIM — Inseto conhecido. O nome compõe-se de co — buraco, e pim — ferrão.


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É isso!

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