29 de out de 2012

As Escolas Literárias: o “Arcadismo”


O termo Arcadismo vem do nome Arcádia, região da antiga Grécia onde, conforme reza a mitologia, pastores e poetas viveriam uma existência de amor e poesia. A época do Arcadismo transcorre entre 1756, data da fundação da Arcádia Lusitana, e 1825, data da publicação do poema Camões, de Garrett, que dá início ao Romantismo. Revoltando-se contra os excessos a que havia chegado o Barroco, a estética arcádica preconiza a restauração dos ideais clássicos de arte e de vida, mediante a revalorização da poesia lírica de Camões e do pastoralismo quinhentista e, ao mesmo tempo, a revivescência dos modelos greco-latinos. Somente a poesia serviu à expressão do Arcadismo; a prosa que se cultivou no tempo, visto ser não-literária, obedece a outras linhas de pensamento existentes na segunda metade do século XVIII (Massaud Moisés: “A Literatura Portuguesa através dos textos”). Arcadismo expressa uma visão mais sensualista da existência, propondo uma volta à natureza e um contato maior com a vida simples do campo. Em pleno século XVIII, os poetas arcádicos recriam em seus textos as paisagens campestres de outras épocas, com pastores e pastoras cantando e vivendo uma existência sadia e amorosa, preocupados apenas em cuidar de seus rebanhos; esse tipo de recriação da vida é chamado de bucolismo e constitui uma das características marcantes da poesia arcádica. Aliás, o desejo de identificação com a figura de pastores levou os poetas arcádicos a adotarem para si pseudônimos gregos e latinos e a se referirem, em suas poesias, a elementos da mitologia clássica (ninfas, deuses etc.). O próprio nome Arcadismo foi tirado de Arcádia, região da Grécia onde, segundo a mitologia, pastores e poetas viveriam uma existência de amor e poesia  (Douglas Tufano: “Estudos de Língua e Literatura”). Podemos entender o Neoclassicismo ou Arcadismo como o lado artístico da postura mental do século XVIII. Este é o chamado Século das Luzes, na medida exata em que se opõe a um certo obscurantismo do século anterior e propaga a ciência, o saber e o progresso: iluminismo  Ilustração, Enciclopedismo. Surge a crença de que o bem-estar coletivo só pode advir da razão. O ápice deste movimento progressista coincide com a Revolução Industrial e com a conseqüente urbanização nas áreas mais desenvolvidas. Semelhante avanço tecnológico decorre de um apego às coisas práticas da vida, o que facilmente se explica como retomada do espírito desbravador do Renascimento do século XVI. A expressão propriamente artística do Renascimento é chamada Classicismo. Seus princípios, depois de ligeiramente deformados no período seiscentista, são retomados com fervor quase sacramental nos anos setecentos: daí o nome Neo (novo) classicismo (A. Medina Rodrigues, Dácio A. de Castro e Ivan P. Teixeira: “Antologia da Literatura Brasileira”). A linguagem árcade difere bastante da do Barroco tanto ao nível formal quanto ao nível do conteúdo. A simplicidade e a objetividade da linguagem árcade traduzem o racionalismo burguês que se manifesta tanto na literatura quanto na filosofia e na ciência da época. Influenciados por certos ideais artísticos do poeta latino Horácio, tais como fugere urbem (“fuga da cidade”) e aurea mediocritas (vida medíocre materialmente mas plena em realizações espirituais), os árcades valorizam a vida campestre, o bucolismo, colocando-se  na posição de pastores que celebram a poesia, a música, a vida natural e o amor. Se se considerar que os poetas árcades eram, na maioria, homens letrados - advogados, médicos, juízes -, pode parecer estranha a simulação pastoral. E que, primeiramente, o Arcadismo é uma arte convencional, baseada na imitação dos clássicos. Imitando certos temas e personagens antigos, o poeta árcade não só garante reconhecimento de qualidade de suas obras perante o público como também despersonaliza o lirismo; ou seja, nunca é o próprio poeta quem exprime seus sentimentos diretamente, mas um pastor, que trata temas genéricos e universais (William Roberto Cereja e Thereza A. C. Magalhães: “Português: Linguagens”). Dentre os nomes inseridos na escola árcade, destacam-se Bocage, em Portugal, e Tomás Antônio Gonzaga, no Brasil, entre outros. Manuel Maria Barbosa du Bocage, de origem francesa pelo lado materno, nasce em Setúbal, 1765, e falece em Lisboa, 1805. Muito cedo começa a escrever versos. Ingressa, em 1783, — na Academia da Marinha, onde mantém contato com poetas e boêmios da época. Fixou-se em Lisboa, em 1790, ano que marca o início de sua atividade literária. Consegue renome, compondo uma elegia sobre a morte do filho do Marquês de Marialba. Nos últimos meses de sua vida, reconcilia-se com a religião e escreve os célebres sonetos: Meu ser evaporei na lida insana e Já Bocage não sou. Deixou-nos uma vasta obra — Rimas (1791-1804). Bocage é considerado o maior e o melhor poeta árcade da literatura portuguesa. Cultivou a poesia satírica, mas revelou-se um dos grandes sonetistas portugueses em suas composições líricas. Bocage adotou o pseudônimo de Elmano Sadino (Maria da Conceição Castro: “Língua e Literatura”). Já em relação Tomás Antônio Gonzaga, é o poeta árcade brasileiro mais celebrado, principalmente por sua simplicidade. Nascido em 1744, no Porto, morou em Pernambuco, depois na Bahia com o pai, pois ficou órfão de mãe ainda no primeiro ano de vida. Sua formação educacional aqui se fez no Colégio dos Jesuítas. Em 1761, retorna a Portugal onde cursa a Faculdade de Direito. De volta ao Brasil, em 1782 é nomeado ouvidor de Vila Rica e um ano depois conhece Maria Joaquina Dorotéia de Seixas Brandão, a pastora Marília de sua obra, de quem chega a ficar noivo, apesar da oposição da família da moça - ele era pobre e 22 anos mais velho que ela. Entretanto sua visão crítica acerca do dízimo e da cobrança de impostos leva-o a enfrentar polêmicas com o Governador Luís Cunha Meneses. Preso como inconfidente, foi mandado para o exílio, em Moçambique (1792), onde se casou e viveu sem nunca mais escrever poesia. Morreu em 1810, aos 66 anos (Paschoalin e Spadoto: “Literatura, Gramática e Redação”).


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É isso!

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