12 de nov. de 2012

O que é “Sangria”


Sangria é a perda ou extravasamento de sangue por qualquer lesão ou mediante a intervenção humana, como se fazia antigamente para tentar curar certas doenças.  Vem tal palavra do espanhol sangría, que era uma prática médica muito usual especialmente na Europa, realizada inicialmente por barbeiros, por sua exímia habilidade no corte com navalha. Em tempos bem mais antigos, era comum, no mês de março, a prática das sangrias. Os médicos pensavam que, assim como a natureza renovava a seiva das plantas, da mesma forma o homem devia renovar o sangue. A nossa Literatura está repleta de exemplos do uso da sangria como prática médica. Vemos isso em: Lima Barreto, em “Triste Fim de Policarpo Quaresma”: “De noite, lia o padre Vieira, mas logo às primeiras linhas o sono lhe vinha e dormia sonhando-se “físico”, tratado de mestre, em pleno Seiscentos, prescrevendo sangria e água quente, tal e qual o doutor Sangrado”; Joaquim de Macedo, em “A Moreninha”: “E além destas palavras não quis pronunciar mais uma única sobre o seu estado. E, contudo, ele estava em violenta exacerbação. O médico deu por terminada a sua visita. Algumas aplicações se fizeram e um dos colegas de Augusto, que o tinha vindo procurar, fez-lhe o que chamou uma bela sangria de braços”; Machado de Assis, em “Memorial de Aires”: “Que valem tais ocorrências agora, neste ano de 1888? Que pode valer a loja de um barbeiro que eu via por esse tempo, com sanguessugas à porta, dentro de um grosso frasco de vidro com água e não sei que massa? Há muito que se não deitam bichas a doentes; elas, porém, cá estão no meu cérebro, abaixo e acima, como nos vidros. Era negócio dos barbeiros e dos farmacêuticos, creio; a sangria é que era só dos barbeiros. Também já se não sangra pessoa nenhuma. Costumes e instituições, tudo perece”; em “A Semana”: “A familiaridade com a morte é bela, nos grandes momentos, e pode ser grandiosa, além de necessária. Mas, aplicada aos eventos miúdos, perde a graça natural e o poder cívico, para se converter em derivação de maus humores. É reviver a prática dos médicos de outro tempo, que a tudo aplicavam sanguessugas e sangrias. Quem nunca esteve com o braço estendido, à espera que as bichas caíssem de fartas, e não viu esguichá-las ali mesmo para lhes tirar o sangue que acabavam de sugar, não sabe o que era a medicina velha. Não havia que dizer, se era necessária; mas o uso vulgarizou-se tanto que o mau médico antes de atinar com a doença, mandava ao enfermo esse viático aborrecido. Às vezes, o mal era um defluxo. Que é a loucura senão uma supressão da transpiração do espírito?”; Manuel Antônio de Almeida, em “Memórias de um Sargento de Milícias”: “Poucos dias antes de chegar ao Rio o capitão do navio adoeceu; a princípio nem ele nem alguém teve a menor dúvida de que ficaria bom logo depois da primeira sangria; porém repentinamente o negócio complicou-se, e nem com a terceira e quarta se pôde conseguir coisa alguma.”

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É isso!

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