21 de nov de 2012

O Calendário sob s olhar do Século XIX



O texto, a seguir, foi escrito no remoto ano de 1873, referente a dados que, na época, refletiam o conhecimento sobre o calendário, incluindo aí o conhecimento sobre o tempo, os anos, os meses e outros assuntos correlatos. A linguagem também reflete o contexto daquele momento histórico, sendo o texto, hoje, muito importante para ampliar os horizontes de quem deseja conhecer melhor a história do tempo no decorrer dos séculos. 

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O CALENDÁRIO
As observações do movimento e revolução aparentes do sol e do movimento da lua determinaram os diversos períodos empregados na sociedade para a distribuição do tempo. A escolha destes períodos, e a ordem desta distribuição acomodada aos usos da vida, indicando os dias, as semanas, os meses etc., compõem o que se chama calendário.

O tempo que a terra gasta para realizar seus movimentos forma ano solar ou trópico. A sua divisão em 365 dias, que foi adotada pelos antigos povos, produziu erros sensíveis; de modo que, observando-se o mesmo solstício por muitos anos consecutivos, verificou-se que acontecia mais tarde do que sucederia se o ano fosse exatamente desse numero de dias. Achou-se um erro de 15 dias em 60 anos; o que demonstrava ser o ano maior um quarto de dia do que até então se considerou, pelo que regulou-se a sua duração em 365 dias e 6 horas.

Este valor, posto que mais aproximado que o primeiro, estava ainda longe de ser exato. Hiparco, comparando uma observação de solstício que fez com outra de Aristarco, feita 145 anos antes, achou que o ultimo solstício havia acontecido meio dia antes do que devera se o ano fosse de 365 dias e 6 horas. Havia, pois, um erro de 0,5 de dia em 145 anos, ou 0.00345 de dia em cada ano. Donde se concluiu ser a duração do ano de 365 dias e 0.24655, resultado que Delembre, no principio deste século (século XIX), ainda corrigiu, dando ao verdadeiro ano médio 365 dias e 0,242264.

As desigualdades, tanto periódicas como seculares, do aparecimento do sol em um ponto dado, fazem com que não baste a observação de dois equinócios para ter a verdadeira extensão do ano. Este astro não volta constantemente aos mesmos equinócios em intervalos de tempo perfeitamente iguais. As desigualdades periódicas, produzidas pela oscilação da terra em sua órbita durante a sua revolução, desenvolvem-se no intervalo de um ano, ou de um curto numero de anos; e compensam-se depois por si mesmas, voltando a passar pelos mesmos valores. As desigualdade seculares, pelo contraria, vão sempre crescendo ou decrescendo desde às mais remotas observações até às de nossos dias. Confrontando-se as observações modernas com as antigas, tornam-se sensíveis estes efeitos acumulados.

Estes resultados, para serem aplicados à vida civil, e tornar-se vulgar o seu uso, necessitam ser despidos das frações que os acompanham, a fim da memória conservá-los com facilidade. Como reconheceu-se o inconveniente da divisão do ano em 365 dias, por sua inexatidão recair principalmente sobre a origem sucessiva do ano nas diversas estações; de forma que a pequena diferença de 0.242264 de dia, produzindo muito proximamente um dia em quatro anos avançava-se um ano de 365 dias no fim de 1508 anos; inventou-se o método das intercalações, que consiste em dar ao ano comum 365 dias e corrigir o erro anual com o acréscimo de um dia, quando se completasse.

A intercalação mais simples foi a estabelecida por Júlio César. Vendo ele que o Calendário romano era vicioso, e tendo consultado um insigne astrônomo, por nome Sosígenes, cuja opinião era que o ano solar constava de 365 dias e 6 horas exatas, fez o ano civil de 365 dias; e ordenou que de que de 4 em 4 anos, com as 6 horas completas, que supunha excederem a cada ano, se formasse um dia intercalar, que se acrescentasse ao mês de Fevereiro, ficando então este com 29 dias, e esse ano, que os romanos denominarão bissexto, com 366. A este calendário assim reformado, que se começou a por em pratica 45 anos antes de Jesus Cristo, deu-se o nome de Calendário Juliano.

A reunião de 100 anos julianos forma o século, que é o mais longo dos períodos empregados na sociedade para medir o tempo.

A intercalação se transmitiu a todas as nações; mas conservarão a sua era diferente da dos romanos.

Na era cristã contam-se os anos desde o nascimento de Jesus Cristo, que teve lugar no ano 4004 da criação do mundo, segundo a cronologia vulgar.

Conhecendo-se, com o tempo, que o ano solar não se compunha de 365 dias e 6 horas exatas, e sim de 365 dias, 5 horas, 48 minutos e 45 segundos, isto é, 365 dias e 0,242264, e que a pequena diferença anual de 0,007736 se havia acumulado, e produzido, em 7257 anos, 9 dias e 0,72415, isto é, 10 dias de que estava atrasado o ano civil sobre o solar. Por esta razão, tendo sido fixada a Páscoa em 21 de Março, dia do primeiro equinócio, pelo concílio de Nicéia, celebrado no ano de 325 da era cristã, já no pontificado de Gregório XIII esta festa se tinha antecipado 10 dias, e com ela todo o ciclo das festas móveis. Mandou, pois, o dito papa, por conselho do astrônomo Luiz Lílio, que o dia seguinte aos 4 de Outubro de 1582 não se chamasse 5, mas 15 de Outubro, afim de restituir o primeiro equinócio aos 21 de Março, que então cabia a 11 do mesmo mês; que se continuasse a empregar a intercalação juliana de um dia todos os 4 anos, de maneira que todos os anos, cujo numero fosse divisível por 4, seriam bissextos; e que dos anos seculares, que até ali eram todos bissextos, só o fosse um em cada período de 400 anos, isto é, que suprimisse-se o dia intercalar nos anos 1700, 1800 e 1900, e que subsistisse no ano 2000, e assim perpetuamente, de sorte que três anos seculares comuns fossem seguidos de um ano secular bissexto.

O pequeno erro que ainda resta, depois da intercalação secular, é de 0,0944 de um dia em 400 anos, ou 0,944 em 4000 anos. Convencionando-se, pois, suprimir ainda um bissexto todos os 4000 anos, será a reforma atual por muito tempo suficiente para os séculos futuros.
Este modo de contar os anos constitui o que se chama Calendário Gregoriano, segundo o qual o primeiro equinócio acontece sempre de 19 a 21 de Março. Entre os russos e os cristãos do rito grego ainda não foi adotado este calendário, o que ocasiona uma diferença no modo de contar as datas; de sorte que, por conservarem o calendário juliano, ficarão com 10 dias de menos do ano de 1582 a 1700, 11 de 1800 a 1900, e assim por diante.

O ano é dividido em estações análogas aos trabalhos da agricultura, as quais são: primavera, verão, outono e inverno. Esta grande divisão do ano conduz á de 12 meses, que conforma-se em sua ordem sucessiva com a marcha aparente do sol, e conduz regularmente à passagem deste astro nos diversos signos.

A semana é uma subdivisão do mês, que remonta à mais alta antiguidade : é inútil mencionar o nome dos sete dias que a compõe. Como o ano consta de 52 semanas, cada um destes nomes volta também 52 vezes; porém como 52 vezes 7 só dão 364 dias, o dia em que principia o ano se reproduz mais uma vez para terminá-lo; se o ano é bissexto, o dia 2 de Janeiro tem então o nome de terminal.

A divisão da semana em sete dias é admitida quase que entre todos os povos desde tempos imemoriais. Entretanto, entre os atenienses a semana se compunha de 10 dias, e o mês de três décadas. Este uso adotado em Franca durante a primeira revolução, durou desde 22 de Setembro de 1792 até o 1º de Janeiro de 1800.

As horas são hoje a 24ª parte da revolução diurna da terra; mas existiram povos que dividiram em 12 somente o intervalo total do dia e da noite. O dia de 24 horas é chamado dia artificial, e o tempo que vai do nascer ao por do sol dia natural.

As horas em uso entre os romanos e os judeus era, desiguais. Dividia-se separadamente o dia em 12 partes, o a noite em outras 12; portanto, maiores ou menores segundo o sol estava mais ou menos tempo no horizonte. Também dividiam o dia em quatro partes, a saber: prima, que começava às 5 horas da manhã; terça, às 9 horas; sexta, ao meio-dia ; e nona, às 3 horas da tarde.

As horas babilônicas começavam-se a contar ao nascer do sol; mas as 24 eram iguais. Este era o costume entre os persas, e a maior parte dos orientais. Os gregos modernos seguiram este exemplo.


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É isso!

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Referência Bibliográfica:
Almanak da Provincia de São Paulo para 1873. Primeiro anno. Luné, Antônio José Batista de (org.). Brasiliana – USP

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