6 de abr de 2010

“Judiar": qual a origem?


De acordo com o Novo Dicionário da Língua Portuguesa, de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, o verbo judiar significa: tratar como antigamente se tratavam os judeus, maltratar, atormentar. Exemplos: Ele vivia judiando o pobre animal. / Balaão judiou da jumenta. Outros dicionaristas acrescentam a esta lista mais alguns significados: escarnecer, zombar, mofar etc. Exemplo: Não é justo judiar assim comigo.

Etimologicamente é nítida a relação entre o verbo judiar e os judeus. Todavia, fez-se mister ressaltar que a comunidade judaica atual não atribui sentido pejorativo a esse verbo. Observe o que diz o rabino Henry Sobel, em seu livro “Os Porquês do Judaísmo”: “O significado está claro: não há nada de pejorativo. Não fomos nós que maltratamos. Nós, os judeus, fomos maltratados. E cada vez que usamos a palavra “judiar”, estamos conscientizando os outros. O termo não deve ser eliminado. Pelo contrário, é bom que o mundo se lembre do preconceito do passado, para que não o permita no presente e no futuro.”

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É isso!

12 comentários:

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  2. O verbo judiar, na verdade, provém de Judas, certamente em decorrência da tradição popular de malhá-lo no sábado de aleluia. O termo data do século XIX, bem antes das ações cometidas contra o povo judeu, durante a segunda guerra.

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    1. E vc acha que apenas durante a II Guerra houveram acoes contra o povo judeu? E a Inquisicao? Cruzadas?

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  4. 1. Henry Sobel não tem autoridade para falar sobre a pertinência do uso do verbo. Por representar somente uma sinagoga no Brasil. E há anos, "deixou" este emprego. Mesmo assim, ganhou fama talvez por ser a única pessoa de kipá do Brasil que buscava os holofotes da mídia, em especial, a revista Caras. Hoje não mais.
    2. Apenas quando houve a polêmica das gravatas do Sr Sobel, o público soube o quão pouco ele representava na comunidade. Quem pode falar pela comunidade? Definitivamente o Sr Sobel não. Agora me pergunto: ele ou alguma instituição fez alguma enquete para chegar a esta conclusão? Acredito que não. Que fale por si. Cuidado para não confundir uma opinião como um fato. Maioria dos judeus que conheço se sentiriam no mínimo desconfortáveis em escutar a expressão.
    3. Apresento meu raciocínio e opinião. Para mim, "judiar" tem dois possíveis significados:
    _Primeiro: judiar alguém = fazer de alguém um judeu, ou considerar alguém como judeu. Maltratar alguém como judeus eram/são/devem ser tratados.
    _Segundo: judiar alguém = maltratar alguém como os judeus maltratam os outros. Aí a história muda: o vilão é o judeu que maltrata a todos por motivo algum.
    4. Hebe Antonioli está equivocada e ainda desinformada quanto à história do povo judeu. Obviamente a origem não seria do nome Judas. Se fosse, seria "Judar" ou no máximo "Judear". A letra "i" já entrega. Agora, o símbolo de judas é traição, de jesus sacrifício. Mas o povo judeu é amplamente conhecido (e frenquentemente também definido) por terem sido perseguidos por milênios.
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    A matemática é fácil: o significado é negativo (maltrato), a origem da palavra é do termo "judeu". Precisa de mais?

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    1. Obrigada por tanta lucidez! Fico triste em ouvir esta palavra. A língua Portuguesa possui tantas acepções... o termo é desnecessário e ofensivo sim.

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    2. A segunda consulta vem de São Paulo, capital, assinada por Gabriel, um jovem que precisa de algo mais substancioso que uma simples aula de Português. Escreve ele: “Prezado prof. Moreno, tenho apenas catorze anos mas acompanho sua coluna pela internet. Gosto muito do bom humor e da franqueza com que o senhor trata as pessoas e por isso me animei a lhe fazer uma pergunta. Ontem eu li num site que o holocausto da Alemanha nazista não passa de uma invenção (que eles chamam de “holoconto“) e que a palavra judiar vem das maldades que os judeus costumavam cometer contra os cristãos. Essa explicação está correta? É impressão minha ou o site é meio racista?”.

      Meu caro Gabriel, não fosse pela tenra idade eu não desculparia tuas dúvidas. “Meio” racista? Para começar, ele faz, a meu ver, duas coisas imperdoáveis: primeiro, nega o horror absoluto que foi holocausto; segundo, e talvez pior ainda, procura fazer humor com algo que jamais será engraçado (convenhamos, “holoconto” é uma blague de insuperável mau gosto). Já que frequentas a internet, procura e acharás dezenas de depoimentos e documentários que vão ter dar uma visão aproximada dessa inexplicável explosão da maldade humana. Como diz Giorgio Agamben no início de seu livro sobre Auschwitz (a tradução é minha), “No campo de concentração, uma das principais razões para sobreviver é a ideia de um dia poder testemunhar sobre o que aconteceu” ― exatamente para neutralizar esses fanáticos do lado negro da Força que vivem tentando, dos modos mais delirantes, apagar de nossa memória o que nunca deverá ser esquecido.

      É também um equívoco a explicação que eles dão para judiar. É importante lembrar que as judiarias (ou judarias, como eram mais conhecidas) eram os bairros judeus do Portugal antigo, similares às mourarias, onde se concentravam os muçulmanos. Nas Ordenações Afonsinas, que datam mais ou menos do descobrimento do Brasil, lê-se, no título 86: “De como os judeus hão de viver em judarias apartadamente”. Nas cidades maiores de Portugal, onde esse confinamento era imposto com rigor, era proibido ao judeu, sob graves penas, “andar fora da judaria depois de tanger a Ave Maria”, como nos explica o dicionário de Bluteau.

      O verbo judiar, ao que parece, era usado justamente para descrever as incursões que os cristãos faziam nessas judarias para infernizar a vida de seus moradores ― daí o valor que este termo tem até hoje de “maltratar, tratar com escárnio”. “Vamos judiar!”, portanto, seria um sinônimo para “Vamos mexer com os judeus”. Contudo, contaminada por uma longa tradição de preconceito racial e religioso, a cultura popular (e, portanto, nossa língua) preferiu ver o judeu como o sujeito deste verbo (aquele que judia), quando, na verdade, ele era apenas o seu objeto direto (a vítima, ou seja, aquele que é judiado). O único dicionário que registrou esse ponto de vista foi o Aurélio ― mas apenas até sua segunda edição, a que eu uso, apelidada por mim de Aurélio-vivo (acredite, prezado leitor, esta é a mais confiável de todas, pois as edições seguintes, feitas depois da morte do mestre, continuam descendo vertiginosamente ladeira abaixo). Ali, o verbete judiar abre com uma definição que inexplicavelmente foi retirada das edições posteriores: “tratar como antigamente se tratavam os judeus: escarnecer, maltratar”.

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  5. Buscando acrescentar ao debate, judear e judiar foram intercambiantes no português, uma oscilação comum entre e/i. Segundo o Antônio Geraldo da Cunha no dicionário etimológico da língua portuguesa coloca somente a data de 1813 para a palavra no português.

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  6. Parabéns pela resposta, abrir Sheva Newsletter!

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