25 de mai de 2018

A etimologia de "Farroupilha"


A etimologia de "Farroupilha"

A abonação mais antiga deste termo, em documentos oficiais do século XVIII, foi encontrada pelo indefesso pesquisador rio-grandense Aurélio Porto, a quem a história pátria já deve tantos esclarecimentos. Chamavam-se ali, depreciativamente, farroupilhas uns descontentes nas proximidades do Rio de Janeiro, que vieram à capital protestar contra medidas do governo daquele “tempo do onça”.

O que significava esse termo, diz-nos em 1727 o pai da lexicografia portuguesa, o Pe. Bluteau, no Supplemento ao Vocabulario: “FARROUBILHA: Termo chulo. O que anda mal vestido e desfarrapado; pobretão." Neste primeiro registro da palavra, o qual parece ter passado despercebido até hoje, o bom Bluteau enganou-se decerto, quanto ao b em vez do p de farroupilha, bem como no d insólito antes de esfarrapado.

Em 1813 escreve o carioca Moraes Silva na celebrada 2ª edição do seu Diccionario: "FARROUPILHA: pessoa esfarrapada", ao que a última 9ª edição só acrescentou: "maltrapilho, pelintra". O Diccionario de Constâncio, cuja 1ª edição é de 1836, dá também “FARROUPILHA: pessoa esfarrapada", o que copiaram fielmente os de Faria e Lacerda. De 1837 data o Diccionario de Synonymos de José da Fonseca, que mais tarde Roquete e Faria acrescentaram aos seus. Eis que lá se acha: "Farroupilha, esfarrapado, farrapão, maltrapilho".

Evidencia-se daí que já antes e independentemente da revolução rio-grandense de 1835, vivia farroupilha qual termo geral português. Não há dicionário posterior que o não registre, como naturalmente também o de Domingos Vieira de 1873. Contemporâneo de 1881 dá até uma abonação de Castilho, não influenciado, decerto, pela revolução gaúcha: "Acolho um farroupilha, dou-lhe a minha alma, e ele, até a mulher, me quis roubar." Farroupilha não é, pois, somente termo regional ou nacional brasileiro, mas genuíno português d'aquém e d'além mar.

Farroupilha derivaria de farroupo? Esta palavra, segundo o Elucidário de Viterbo, que com mais correção escreve farropo (autorizado também por Gonçalves Viana), designou no século XV provavelmente carneiro (grande e castrado), como em Turquel, perto de Alcobaça na Extremadura, ainda é o cordeiro (Cândido de Figueiredo). Hoje, porém, "em algumas terras" (Viterbo), sobretudo "no Alentejo" (Conde de Ficalho), passou a significar o porco (grande e castrado). Moraes, já em 1813, cita a respeito o "Regimento dos verdes e montados": "Farroupo é o porco que ainda não passa de ano". Acrescenta também o diminutivo Farroupinho, o porco de menos de um ano, que já não é bácoro; o marranito ou bacorote, como diz José da Fonseca.

Esse farroupo, ou antes farropo, vem possivelmente do árabe charuf ou charof (carneiro, cordeiro), dum modo semelhante como de al-charrub tiramos alfarroba. Em todo caso, farroupo parece termo raro, quase obsoleto, só em algumas regiões de Portugal usado para porco e antigamente para carneiro.

Derivar desse nome regional, quase desconhecido, o universal farroupilha, já de antemão se afigura improvável. Só Aulete aventurou, dubitativamente e em segundo lugar, para farroupilha uma "formação da raiz farrapo (ou farroupo?)”

Mas, neste último caso, era de esperar o masculino farroupilho, significando porquinho ou primitivamente carneirinho, sendo daí difícil a passagem semântica para o sentido esfarrapado, indicado por todos desde Bluteau. Tanto mais que farrapo estava à mão, admitido também expressamente por Constâncio, Faria, Lacerda, pelos competentes Adolfo Coelho e Gonçalves Viana, por Figueiredo, Lemos, Jackson, Silva Bastos, Brunswick, Séguier, Antenor Nascentes, o próprio Aulete em primeiro lugar, por todos enfim! E veremos adiante como essa etimologia de farrapo, ou antes farpa, plenamente se justifica.

Vejamos agora a etimologia de farrapo ou farpa, para preparar a de farroupilha. Sem entrarmos em minúcias, aqui numerosas e complicadas, basta dizer que a última ciência etimológica, representada sobretudo pela 3ª edição, agora em 1935 terminada, do Romanisches Etymologisches Wóterbuch de Meyver-Lübke, corrobora cada vez mais a probabilidade de virem tanto farrapo, como farpa e felpa dum mesmo radical galo-romano. Como tal adopta Meyer-Lübke, segundo glossários do X século, o latim medieval faluppa, (palhinha) modificado também para falapa, frapa, farupa, etc. Daí viriam o italiano frappa, igual ao nosso farpa, ao antigo francês frepe, ferpe, felpe, de onde tiramos felpa, etc. Farrapo mesmo será um substantivo verbal de farpar, que se alargou para fa(r)rapar, usado por Gil Vicente. O rr dobra do português farrapo aparece ainda simples no correspondente espanhol harapo, mas com tendência de duplicar-se em arrapo e des(h)arrapado. O antigo espanhol haldrapa, haldraposo, insinua uma influência de drapo = trapo (francês drap), que determinou talvez também a forma masculina harapo, farrapo, a despeito de farpa feminina.

Pode derivar-se agora, de um modo mais inteligível, farroupilha de farrapo ou antes farpo, o que no fundo vale o mesmo. A terminação diminutiva ilha, propriamente feminina, pressupõe um étimo feminino, como também farpela, pela mesma razão, deve ser derivada antes de farpa que de farrapo. Pois bem, por analogia de farpela, “roupa reles”, admitamos farpilha, de sentido semelhante. Esta forma alargou-se, porém, fa(r)ropilha, quase como farpar para farrapar, farrapo, só que tomou o o: farropilha (sendo ou de farroupilha capricho ortográfico. Esse o se explica: ou por certa predileção da labial (p) por o, do que Cornu dá bastantes exemplos, sendo conhecidíssimo: por em vez de per, ou por um regresso, marcado com formas hoje extintas, aos étimos antigos foluppa, faruppa, faropa etc. Corresponde assim, por exemplo, no mesmo radical, ao piemontês flapa (casulo), o toscano-lombardo falopa. Não se esqueça, aliás, que farropilha é forma popular, chula segundo Bluteau, onde as vogais variam às vezes como ao acaso, não admirando assim a mudança de farpilha para farropilha. Comparem-se as formas populares francesas, do mesmo radical e sentido (= farropilha, maroto): antigo frapaille, moderno frapouille ou fripouille.

O significado de farropilha teria sido, na origem, quase o mesmo que farpella ou “roupa esfarrapada”. Cedo, porém, passou o termo a designar um homem1 vestido de tal roupa, um esfarrapado, tornando-se assim também masculino. Disto não faltam exemplos, até da mesma desinência: o pandilha é o cumplice duma pandilha ou “panelinha conluiada”; o potrilha é propriamente um atacado da potra (ou da potrilha); o bigorrilha parece corruptela popular do figurilha (que faz uma figurilha ou figura pequena, um vil ou miserável). Significativo é que Cândido de Figueiredo explica tanto o pandilha, como o potrilha por farroupilha e bigorrilha! Usa-se no sul do Brasil também o americanismo espanhol: o cajetilha, para designar um habitante presumido das cidades, nome derivado de cajetilla (caixinha), talvez por significar (caixinha), de cajeta (de trinque).

Lembremos ainda que também o galego tem farroupeiro (esfarrapado ou farropilha) Ponderando tudo, convencer-nos-emos de que farropilha é tuna antiga herança da língua popular portuguesa, herança que faríamos mal em trocar por um artificial farrapilha que como tal nunca viveu.

Por fim, a questão da ortografia exata: farroupilha ou farropilha? Sem dúvida alguma, à vista da derivação exposta, não se vê em nada justificado o ou, que deveria representar um au, al, oc ou o-i primitivos, que aqui nunca existiram. Por qualquer capricho, começou-se a escrever uma vez farroupilha, talvez por instintiva assimilação a roupa. E assim ficou, graças à rotina ou à célebre lei da inércia. Já vimos que, no diferente farroupo, Viterbo citou dos documentos a forma correta farropo, não aceita contudo. E temos mais o toucinho, a garoupa ou choupa etc., com ou indevidos.

Mas neste tempo da simplificação ortográfica, poderíamos e deveríamos restabelecer a grafia correta: farropilha, farropo etc. Vemos, porém, que se alteram a talante símbolos antiquíssimos, fundados na história da língua e aconselhados pelo bom senso já para distinguir mas formas meramente arbitrárias, introduzidas por acaso e por capricho mantidas, conservam-se carinhosamente, sem utilidade nem razão. Receemos que também farroupilha vá gozar desse privilégio, embora este, como outras regalias nunca tenham entrado nas aspirações dos verdadeiros farropilhas!

J. A. Padberg-Drenkpol
Revista "Excelsior", abril de 1935.

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